quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Nem Todas As Igrejas Nos Lares São Igrejas Orgânicas


Marcio S. da Rocha


Hoje em dia, a expressão “igreja orgânica” virou quase uma “moda eclesial”, e quase um sinônimo de igrejas nos lares. No entanto, existem muitas igrejas funcionando em lares, mas nem todas são, de fato, igrejas orgânicas. Não é pelo simples fato de alguns irmãos se reunirem em seus lares, que isto caracteriza uma igreja orgânica. Neste artigo abordaremos alguns tipos de igrejas e grupos que se reúnem nos lares, mas que não se constituem autênticas igrejas orgânicas, com o objetivo de ajudar àqueles irmãos que têm sido despertados pelo Espírito Santo a buscarem uma forma neotestamentária de igreja, para que não se envolvam com grupos eclesiásticos não-orgânicos que não serão tão abençoadores para suas vidas.

O primeiro tipo de igreja em um lar que não é orgânica, e é bem fácil de perceber, é compreendido pelas igrejas que imitam as igrejas institucionais, tanto na estrutura hierárquica, quanto na forma de culto. Essas igrejas não passam de mini-igrejas institucionais. Possuem pastores (clérigos), e conseqüentemente, os demais irmãos são “leigos”. As reuniões dessas igrejas seguem uma liturgia rígida e essencialmente igual às das igrejas institucionais. O louvor é dirigido por alguém que ocupa a função (ou cargo) de ministro de louvor e nelas são feitos sermões pelo pastor. Algumas até usam aqueles hinários pretos tradicionais. Muitas vezes, embora não se possa generalizar, tais igrejas são formadas por irmãos magoados e decepcionados com certas denominações ou igrejas, porém, que não se conscientizaram que as práticas eclesiais das igrejas institucionalizadas não encontram guarida no Novo Testamento; por isso, continuam imitando seus métodos. Estão nos lares mas não são igrejas orgânicas.

Existem igrejas nos lares (ou organizações que agrupam diversas igrejas nos lares) que são exclusivistas. Este tipo também não é orgânico, e constitui um dos tipos mais danosos de igreja. As igrejas nos lares que são exclusivistas pregam que todos os irmãos das demais igrejas não estão salvos – especialmente os irmãos das igrejas institucionais. Apenas os irmãos que se congregam com eles estão salvos. Uma igreja orgânica jamais pregaria isto. A igreja do Senhor é constituída de pessoas, e por isso, não importa a denominação ou a comunidade à qual uma pessoa freqüenta; se ela recebeu a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, ela é salva e é irmã em Cristo. As igrejas orgânicas não concordam com as práticas das igrejas modernas, mas são plenamente conscientes de que Deus também salva e abençoa pessoas por meio das igrejas institucionalizadas. Igreja não salva, não importa se é orgânica ou não. Essas igrejas exclusivistas geralmente se autodenominam como “a igreja”, evidenciando seu caráter exclusivista. Ao buscar uma igreja orgânica, o irmão ou a irmã deve fugir desse tipo de igreja exclusivista.

As igrejas em células e as igrejas de pequenos grupos também se reúnem nos lares, no entanto, não são igrejas orgânicas ou neotestamentárias. Para não ser repetitivo com relação às características desses tipos de igrejas e às suas diferenças significativas em comparação com as igrejas orgânicas, remeto ao meu artigo “Qual A Diferença Entre Os Pequenos Grupos E As Igrejas Nos lares?” postado neste blog (www.igrejaorganica.blogspot.com).

Há outro tipo de igrejas nos lares que também não são autenticamente orgânicas, embora possuam muitas práticas eclesiais neotestamentárias. São aquelas que se congregam prioritariamente com base na amizade entre seus membros. Poderíamos chamá-las de igrejas relacionais. Nessas igrejas, os relacionamentos são colocados acima de tudo. Os congregantes dessas igrejas não fazem questão de saber como o outro pensa, com relação à doutrina cristã. Um participante da igreja pode até adotar uma doutrina herética (não bíblica), e estar normalmente participando da igreja relacional (como se fosse irmão) sem qualquer problema, pois, para os participantes desse tipo de igreja, qualquer doutrina que venha a atrapalhar a amizade entre irmãos, não lhes interessa. Poderíamos classificá-los no campo da teologia como liberais (não ortodoxos). As igrejas relacionais também apresentam outra característica que as difere sutilmente de uma autêntica igreja orgânica. É que, embora elas se reúnam nos lares de seus membros, não consideram que o lar seja o lugar ideal para a reunião da igreja. Assim, defendem que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito, é uma igreja.

Por outro lado, as igrejas orgânicas também valorizam os relacionamentos e buscam o aprofundamento da amizade entre os irmãos. Neste contexto, elas são também relacionais. Porém, valorizam acima de tudo as doutrinas centrais do Cristianismo (Bíblia como revelação de Deus; Trindade; Pecaminosidade humana; Justificação/Salvação pela fé em Cristo etc.), e não consideram como irmão alguém que negue ou altere essas doutrinas. As igrejas orgânicas são Cristocêntricas e bíblicas. As igrejas orgânicas se dedicam ao estudo das Escrituras com fervor, assim como faziam as igrejas do primeiro século: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações.” (Atos 2.42). Entretanto, apesar de não “negociarem” as doutrinas essenciais, os irmãos das igrejas orgânicas respeitam a posição de cada um quanto às doutrinas periféricas, ou secundárias, e convivem em paz. Valorizar os relacionamentos é orgânico; porém, colocá-los acima da sã-doutrina não é.

Há ainda as igrejas nos lares com ênfase no crescimento numérico, na multiplicação de igrejas. Essas se consideram cumpridoras fiéis da grande comissão, por meio de reuniões nos lares. Elas exaltam o crescimento quantitativo e a descentralização organizacional total daquilo que chamam de “Movimento Igreja Orgânica”. De modo parecido com o tipo descrito anteriormente, as igrejas multiplicadoras também postulam que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito (principalmente evangelístico), é uma igreja.

Nenhuma dessas igrejas descritas neste artigo é orgânica, embora sejam igrejas nos lares. Apesar da aparência orgânica, essas igrejas são fruto de uma elaboração ou alteração humana, portanto, são igrejas “transgênicas”. Sugiro que o leitor complemente a leitura do presente artigo lendo meu outro artigo “Características das Igrejas Orgânicas”, postado no blog www.igrejaorganica.blogspot.com no mês de fevereiro de 2010.

Encerro citando Frank Viola, no seu parágrafo sobre a vida orgânica da igreja:

“Vida orgânica da Igreja é algo profundamente simples, porém, infinitamente complicado. Satisfaz os anseios mais profundos do espírito humano, mas frustra a alma e traz lances de morte à carne. É, ao mesmo tempo, gratificante e enlouquecedora. É sem dúvida a maior experiência espiritual que um mortal pode conhecer. Por quê? Simplesmente porque Deus escolheu a ekklesia em sua expressão orgânica para revelar as glórias e a riqueza do seu Filho amado, o Senhor Jesus Cristo, e para trazer a esta terra a comunhão que existe dentro da Trindade.”

Fonte: http://igrejaorganica.blogspot.com

Qual é o problema de se ter edifícios-templos?


Marcio S. da Rocha

O Senhor Jesus inaugurou uma era em que o local não possui mais nenhuma importância para a adoração. A mulher samaritana que conversou com Jesus, junto ao Poço de Jacó (João 4.5-26), tinha uma grande e sincera dúvida, exatamente sobre o local “certo” para se adorar. Aquela mulher sabia que Salomão havia construído um templo em Jerusalém para adoração ao Deus de Israel, e que este templo foi construído sob a permissão de Deus, antes negada ao seu pai – Davi. Os samaritanos eram Israelitas (do reino do Norte) e, desde os tempos de Roboão (filho de Salomão), estavam separados de Judá (o reino do sul). Eles desenvolveram seus próprios sacerdotes e adotaram o monte Gerizim como “local certo” para adoração, pois consideravam, em suas próprias escrituras, que fora ali (e não no monte Ebal) que Moisés ordenara a construção de um altar (Dt. 27.4-6). Esta dúvida angustiava os samaritanos que eram sinceros adoradores do Senhor: onde devemos adorar ao Senhor? Será que é somente no templo de Jerusalém – como dizem os judeus – que Adonai aceita adoração? Ou será que ele aceita somente a adoração que for feita no Monte Gerizim?

A resposta do Senhor Jesus para a samaritana foi estonteante:

“Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte nem em Jerusalém... No entanto, está chegando a hora, e de fato, já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura.” (João 4.21, 23-24. NVI).

Ali estava o próprio Senhor – a quem adoramos – esclarecendo que, a partir daquele momento, estava iniciada uma era em que a adoração tinha que ser “em espírito e em verdade”, ou seja, independente de “lugar sagrado”. O paradigma (o modelo) da adoração mudou desde então. A adoração agora tem que ser feita no íntimo da alma humana (em espírito) e tem que ser sincera (em verdade). E Jesus enfatizou ainda que agora este é o padrão que é aceito por Deus: “São estes os adoradores que o Pai procura.” Isto é muito forte! Deus-Pai está à procura de pessoas que o adorem assim, independente de lugar sagrado, no íntimo de sua alma, e de forma sincera. Mais à frente, Paulo, o apóstolo, afirmou inspirado por Jesus (e em completa harmonia com seu ensino) que o nosso próprio corpo é o templo do Espírito Santo. “Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor. 3.16). Nós, cristãos, portanto, não precisamos de edifícios-templos para podermos adorar a Deus, pois Ele habita em nossos corpos.

É possível adorar sinceramente ao Senhor fora de um templo? Sim, é possível. Na verdade, foi exatamente isto o que o Senhor ensinou; tanto faz adorar a Deus num templo quanto em qualquer outro lugar. O que importa para Deus hoje é a vida espiritual da pessoa e sua sinceridade de coração. É possível adorar sinceramente ao Senhor, mesmo estando dentro de um templo? Sim, também é possível. Certamente há pessoas hoje adorando sinceramente a Deus dentro dos edifícios das igrejas evangélicas e até católicas.

O primeiro problema em se ter edifícios-templos na Era da Graça (depois de Cristo), portanto, é que eles representam gastos em coisas supérfluas. Construir santuários para neles adorar a Deus, segundo nosso Senhor Jesus, é desnecessário. Deus não se importa mais com isto. Investir dinheiro na construção de edifícios-templo hoje em dia é gastar em algo que “não é pão”, e isto é falta de sabedoria. Mais profundamente ligado a isto está o fato de que, desde aquele dia em que Jesus conversou com a samaritana, o único lugar sagrado do mundo inteiro é o nosso corpo. Construir um “lugar sagrado” é, então, incoerente com o ensino do Senhor Jesus. Significa insistir teimosamente em algo que o próprio Senhor declarou ultrapassado. E isto porventura não é descrer nele?

O segundo problema em se ter um edifício-templo é que sua arquitetura expressa e influencia o caráter das pessoas que nele se reúnem. Por meio do seu exterior e interior ele mostra explicitamente o que aquela congregação que ali se reúne é, e como funciona. Leonard Sweet, ao citar Henry Lefebvre, diz: “O espaço nunca está vazio; sempre encarna um significado.”[1] Quando cursei a cadeira de Introdução à Arquitetura, no curso de Engenharia Civil, soube que existe um cânone (um princípio) da Arquitetura que diz: “O formato determina a função”. O formato de um edifício reflete sua função particular. Pensar que o local onde uma igreja se reúne é uma simples questão de conveniência é um erro trágico. Quando os arquitetos são contratados (pelos clérigos) para projetar um templo, eles não projetam um lugar comum, mas um “lugar sagrado”, desprezando assim o ensino do Senhor, de que não há mais lugares sagrados a não ser os corações dos seres humanos. E o projetam de modo que o espaço não só propicie, mas direcione o que acontecerá ali.

O local de reunião de uma igreja se reúne nos diz de forma muito clara como ela se reúne – o que ela faz ali. E a forma como ela se reúne expressa por sua vez como aquela igreja entende ser o propósito de Deus para o seu corpo, no que concerne ao modo de se reunir. Por trás de cada uma de nossas ações está uma crença. Os edifícios-templos não refletem simplesmente uma conveniência. Eles refletem uma crença. Não há neutralidade nisto. Os templos possuem, por exemplo, tetos altos para transmitir a idéia de que os “leigos” são muito pequenos; para inibi-los de falar ali. Reflita sinceramente e veja como é difícil um membro da igreja ser visto ou ouvido do banco onde está sentado. Os templos são projetados para serem palcos dos clérigos (pastores, presbíteros, diáconos e músicos) e para tornarem os demais membros da igreja passivos. O que fica em posições mais altas dentro de um santuário exalta o que aquela comunidade considera (crê) ser mais importante – o púlpito, por exemplo. Sua fachada, seus fundos, e todos os seus outros elementos também expressam isto (luminosidade, cores, sonoridade etc.). Se refletirmos nestas questões, compreenderemos exatamente porque as modernas igrejas possuem os templos que tem. O consenso geral entre os cristãos membros de igrejas que se reúnem em edifícios é que “a igreja é um lugar sagrado, separado para o culto”. Os templos, em forma de auditórios, transformam as comunidades em ouvintes e os pastores (ou padres) no centro das atenções. Constantino ainda vive e respira nas mentes da maioria dos cristãos de nossos dias.

Além disso, o edifício da igreja é projetado com base na idéia estúpida de que o culto é algo qualitativamente diferente das coisas que fazemos nos demais momentos de nossa vida cotidiana – um pensamento típico da cristandade ocidental. O edifício-templo contribui para a dicotomia sagrado x profano – um grave erro teológico promovido desde o imperador Constantino no quarto século. As Escrituras Sagradas nos ensinam que, uma vez transformados em filhos de Deus, não pode haver mais nada profano em nossas vidas. “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (1 Cor. 10.31. grifo nosso). No interior de um templo, nossos cinco sentidos interagem com o espaço para produzir um estado peculiar de alma; um estado místico e transcendente que visa um escape à vida normal. Como é apenas um estado, passa quando o indivíduo sai dali. Este é um efeito devastador para o Cristianismo: a vida cristã dos freqüentadores de edifícios-templos nos outros seis dias da semana não reflete a presença de Deus, porque aquele estado de espírito só existe ali dentro do templo, no domingo. É um estado muito emocional, passageiro, e não reflete o relacionamento de uma pessoa com Deus. A segunda-feira de manhã vem colocar nosso culto dominical à prova.

O local de reunião de uma igreja exerce um papel crucial em sua vida. Dependendo como é este local, ele pode tanto sufocar as vidas espirituais dos membros da igreja, quanto lhes ensinar boas lições.

O terceiro problema de se ter edifícios-templo é mais simples de se perceber, porém não menos nocivo do que os outros dois anteriores.O edifício exige dinheiro. O edifício precisa ser mantido e o dinheiro passa a ser obrigatório, não mais voluntário, para os membros de uma comunidade cristã que o possui. O edifício passa a ser sufocante para as finanças dos membros da igreja. Para isto foi resgatado do Velho testamento o dízimo, como uma espécie de imposto espiritual (sobre o qual falaremos com mais detalhes em outra oportunidade). Repare que, sem templo, haveria necessidade de muito menos dinheiro para a obra de Deus. Sem templo, as ofertas financeiras dos irmãos poderiam ser canalizadas para a evangelização (sustento de evangelistas itinerantes – missionários) e para o cuidado dos necessitados. Como já vimos que o edifício eclesiástico é desnecessário, pode-se agora dizer que demanda um grande desperdício de dinheiro.

Além do mais, os templos causam muitas brigas entre irmãos quando precisam de uma reforma. Há pessoas que se ligam tanto na sacralidade arquitetônica do templo que se atritam com outros irmãos quando não concordam com as reformas propostas. Isto já foi motivo de divisões e separação de comunidades cristãs. Este é o quarto problema. E ainda há um quinto problema: muitas construções e reformas de edifícios-templos, no Brasil e em outros países subdesenvolvidos, são feitas sem a responsabilidade técnica de um profissional de Engenharia. Isto é ilegal e mortalmente perigoso. Já houve diversos casos de desabamentos de edifícios de igrejas, alguns divulgados pela imprensa.

Não apenas um, mas cinco problemas.

Quando as comunidades cristãs se reúnem nos lares, esses problemas são significativamente minimizados. Nos lares, o evangelho se mistura com a vida, sendo pregado e estudado exatamente onde se vive – no lar – ajudando a quebrar a idéia de “lugar sagrado” para a adoração. O lar como lugar de reunião não imprime emoções especiais. Pelo contrário, expressa e promove a idéia de que devemos viver o Cristianismo em qualquer lugar e a qualquer momento – a começar de casa. A casa como lugar de adoração promove o conceito de que tudo o que fazemos deve ser feito para a glória de Deus, em harmonia com o que o Novo Testamento ensina. A arquitetura dos lares é feita para promover aconchego e valorização da pessoa humana. Ao invés de inibir a participação das pessoas, a incentiva. A arquitetura dos lares também tira do clérigo a centralidade das atenções e inibe a separação do povo de Deus em “clero” e “leigos”. A casa não precisa de dinheiro dos membros da igreja (estes podem até ajudar voluntariamente o dono da casa a mantê-la, mas não são obrigados a isto). Não havendo templo, não haverá brigas nem divisões por causa de obras e reformas.

É preciso ressaltar que o simples fato de uma comunidade se reunir em lares (casas ou apartamentos) não garante que ela esteja adorando ao Senhor “em espírito e em verdade”. Existem comunidades que simplesmente saíram do templo, mas o templo não saiu deles. Mudaram apenas de lugar. Continuaram a agir como se estivessem num “lugar sagrado”, reproduzindo nos lares os rituais que se praticam nos templos, inclusive coleta de dízimos. Isto é tolice. Seria melhor que tais comunidades tivessem ficado nos templos. O mais importante, repita-se, é adorar no íntimo do coração e com sinceridade. O lar em si não tem nenhuma relevância na adoração, assim como não tem o edifício-templo. O lar é neutro. Ele apenas minimiza uma série de problemas que um templo causa.

O edifício-templo, entretanto, não é neutro; é prejudicial. Em suma, construir e manter edifícios-templos (mesmo aqueles que não possuem a forma típica de catedrais) prejudica a igreja cristã porque incute na mente dos cristãos o pensamento de que ainda existem hoje “lugares sagrados” além do coração humano – desprezando o que ensinou o próprio Senhor. Porque a arquitetura dos templos inibe a participação dos membros na igreja e exalta a participação dos clérigos – promovendo a separação do povo de Deus em clérigos e leigos. Porque a realização de cultos sempre no mesmo lugar (“sagrado”) induz e promove a dicotomia “sagrado x profano”. Porque sufoca a vida financeira dos membros da igreja, pois os edifícios precisam de manutenção constante. Porque se tornam, às vezes, motivo de brigas e divisões entre irmãos. E porque os edifícios-templo dão oportunidade às igrejas (nos países subdesenvolvidos) de darem um mau testemunho ao mundo quando constroem ou reformam seus edifícios sem a responsabilidade de um profissional de Engenharia, e assim arriscam a vida de seus próprios membros, expondo-os ao perigo de desabamentos.

Fonte: http://igrejaorganica.blogspot.com

[1] Leonard Sweet. Church Architecture for the 21st Century. Your Church Magazine, março-abril, 1999, p. 10.

Pastor Televisivo Brasileiro Ataca Igrejas Nos Lares

Recentemente, um pregador evangélico pentecostal brasileiro que se utiliza da televisão para divulgar suas mensagens e vender seus livros bradou que as igrejas nos lares não devem ser adotadas pelos cristãos brasileiros, por conterem erros bíblicos-doutrinários. Outro dia ele já havia errado ao pregar contra a clara doutrina bíblica da predestinação. Agora erra novamente, pregando contra as bíblicas igrejas nos lares.

Sua pregação contra as igrejas nos lares abordou principalmente dois pontos: a questão da necessidade do pastor como chefe/autoridade de uma igreja, e do edifício-templo,
como local consagrado a Deus. Segundo aquele pastor televisivo, esses “ingredientes” são indispensáveis para que uma igreja seja “de Deus”.

Acerca dos pastores

A respeito da figura do pastor-chefe, oficial com autoridade hierárquica, o famoso pregador televisivo argumentou que as igrejas necessitam de um pastor com autoridade outorgada pela respectiva igreja, para que seja o “canal de Deus”, e que oriente, equipe, dirija e inspire os fiéis. Sua fundamentação bíblica, contudo, baseou-se em passagens do Novo Testamento que não se referem propriamente a pastores de igrejas locais. Nem Timóteo nem Tito eram pastores de igrejas locais. Este é um erro hermenêutico que a igreja protestante e católica precisam corrigir. Timóteo, Tito, e outros eram colaboradores do apóstolo Paulo (cooperadores), portanto, futuros apóstolos, “trainees” de apóstolo. Eles acompanhavam Paulo em suas viagens, e ele os preparou para serem apóstolos como ele; para dar continuidade ao seu ministério apostólico junto às igrejas gentias, depois dele. Eles não eram pastores. Eram futuros apóstolos. E a função do apóstolo era primordialmente plantar (fundar) igrejas e dirigi-las somente enquanto os seus próprios presbíteros não surgissem. Os apóstolos eram mais parecidos com os missionários transculturais (transnacionais) de hoje. Depois de algum tempo de plantação de uma igreja, os apóstolos apontavam pais de família locais, sábios e maduros na fé e na idade (presbíteros), que, depois de reconhecidos pelos demais irmãos, passavam a compor um conselho de dirigentes das igrejas. Composto o Conselho, a igreja se auto-dirigia. Veja:

“Saúdam-vos Timóteo, meu cooperador, e Lúcio, e Jáson, e Sosípatro, meus parentes.”(Rom. 16.21)

“Quanto a Tito, ele é meu companheiro e cooperador para convosco;” (2 Cor. 8.23).

“Julguei, contudo, necessário enviar-vos Epafrodito, meu irmão, e cooperador, e companheiro nas lutas, e vosso enviado para me socorrer nas minhas necessidades;”(Filip. 2.25).

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses presbíteros (anciãos), como já te mandei;”(Tito 1.5)


(grifos nossos)



Aquele pastor televisivo quer defender a figura do pastor com autoridade hierárquica, porque esquece (ou não sabe) que o próprio Senhor Jesus proibiu a nós cristãos de estabelecermos autoridade hierárquica em nossas igrejas, como o mundo faz. Isto é muito claro em Mateus 20.25-28:

“Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos." (grifo nosso)

A palavra traduzida como “autoridade” em Mat. 20.25 é a palavra grega exousia. Irmãos, vocês podem ler o Novo Testamento Grego do início ao fim e jamais encontrarão esta palavra exousia (autoridade) num contexto onde um crente em Cristo tem exousia(autoridade) sobre outro crente! Você nunca encontrará isto no Novo Testamento. Isto simplesmente não está lá.

Outro erro sério daquele pregador televisionado é pensar que não há pastores nas igrejas nos lares. Há sim! E nelas há pastores de acordo com o Novo Testamento, ou seja, homens locais, maduros na fé e na idade, que possuem os dons necessários ao pastoreio “E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores-mestres,...” (Ef. 4.11). Pastor é dom e não cargo, nem ofício. Os pastores das igrejas nos lares não são “oficiais”, nem “autoridades”, e não recebem salários. As igrejas nos lares reconhecem esses homens como líderes, logo que eles surgem. E eles lideram a igreja voluntariamente, com amor, resignação e com os seus exemplos. Eles servem – não são servidos. Seus testemunhos de vida é o que lhes dá autoridade. Eles não são como a maioria dos pastores das igrejas institucionalizadas, que agem como diz Judas:

“Estes são os escolhidos em vossas festas-ágape, quando se banqueteiam convosco,pastores que se apascentam a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos; são árvores sem folhas nem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas;”(Judas 1.12, grifo nosso).

Nem são dominadores, “mandões”, amantes de cargos e títulos, contra os quais Pedro repreende:

“Aos presbíteros, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou ancião com eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade;nem como dominadoressobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1Pe 5.3, grifo nosso).

Os pastores-presbíteros das igrejas nos lares seguem o exemplo de Paulo, que nunca recebeu dinheiro de uma igreja na qual ele servia. Eles levantam seus próprios sustentos com trabalhos seculares e contribuem financeiramente com as igrejas onde servem. Dão, ao invés de receber, pois "Há maior felicidade em dar do que em receber" (Atos 20.35)

Acerca dos edifícios-templo

O pastor televisivo novamente usou mal a fundamentação bíblica, quando defendeu os edifícios-templos. Ele citou Mateus 21.13: "E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores." Com este verso o pastor afirmou no canal de televisão que Jesus apoiava a construção de templos por cada igreja! Este é um erro tão grande que é difícil não perceber. O Senhor Jesus, quando disse isto, estava expulsando os comerciantes que atuavam no pátio do Templo de Jerusalém, aquele construído por Salomão e reconstruído por Herodes (não com a mesma planta nem com a mesma riqueza de acabamento). Aquele templo -- o Templo de Jerusalém -- era, na terra, o templo de YHWH (Yahweh), o Deus dos Judeus. O único templo na face da terra que havia sido aceito por Deus como local principal (mas não único) de sua manifestação aos Judeus. Era de se esperar que Jesus honrasse aquilo que seu pai honrou -- o Templo de Jerusalém. Porém, Jesus ali estava se referindo exclusiva e diretamente àquele templo, enquanto existia, e não aos templos que existem hoje em toda esquina, construídos por igrejas institucionalizadas. Lembremo-nos de que, logo depois, o mesmo Senhor Jesus profetizou que o Templo de Jerusalém seria destruído e que não restaria "pedra sobre pedra". Isto foi cumprido no ano 70 d.C. quando os romanos invadiram e destruíram Jerusalém, e inclusive, incendiaram o seu templo. E agora? Já que não existe mais aquele templo, onde é hoje a casa de Deus? Todo cristão sabe que é o templo de sua denominação, certo? Errado! O templo hoje é o nosso corpo!

O Senhor Jesus disse a mulher samaritana (João 4) que não se deve adorar “Nem no templo nem no monte, mas em espírito e em verdade”. E Ele enfatizou ainda que são esses os adoradores que Deus procura. Em outras palavras, hoje, o Senhor está interessado em pessoas que o adorem em qualquer lugar por onde andarem, e não em pessoas que o adoram apenas em certos lugares consagrados, e em certos dias sagrados. Isso é religiosidade superficial -- e muitas vezes, falsa. Paulo, o apóstolo, ensinou, em clara harmonia com o ensino de Jesus Cristo, nosso amado Senhor, quenosso corpo é o templo onde habita Deus (ver 1 Cor. 6.19; 2 Tim. 1.14; Tiago 4.5). Se o templo é o nosso corpo, pra que edifícios-templo? Construir templos fere o ensino do Senhor.

O maior problema dos edifícios-templo, além de não serem neo-testamentários, é que eles imprimem subliminarmente na mente dos fiéis, a falsa idéia de que Deus mora nos templos; que Ele só se manifesta e fala com os crentes lá. É preciso ressaltar quea igreja não é um lugar, mas um grupo de pessoas. Os crentes não vão à igreja -- eles, juntos, são a igreja.

Outro problema que os templos causam é a alta despesa para construí-los e/ou mantê-los. Os cristãos que se congregam em igrejas com templos gastam uma enorme quantia na manutenção de templos, ao invés de investir na vida dos “pobres entre nós”. Pesquisas nos Estados Unidos demonstram que 80% do dinheiro arrecadado pelas igrejas institucionalizadas é gasto com manutenção de edifícios e com salário de pastores e funcionários. Na maioria das igrejas nos lares de hoje, ao contrário disso, cerca de 80% de qualquer dinheiro arrecadado é gasto com os necessitados e com missionários; e aproximadamente 20% é gasto com infra-estrutura.

Concluindo, o pregador televisivo equivocou-se enormemente. As igrejas nos lares de hoje continuam bíblicas e válidas como forma de igreja. Aliás, suas práticas se fundamentam muito mais no Novo Testamento do que as da igreja institucionalizada. A igreja do Senhor não precisa de pastores “oficiais” autoritários e assalariados, dominadores, que pesam na carteira do povo de Deus; ela precisa de servos, presbíteros, voluntários, de bom testemunho na sociedade, que amem ao Senhor em primeiro lugar e ao próximo como a si mesmos. A igreja não precisa de templos de concreto e tijolo; ela precisa de templos de carne e osso – irmãos que abram seu coração para que Jesus Cristo venha morar e se manifestar neles.

Características Marcantes da Igreja Primitiva


Marcio da Rocha

A igreja primitiva possuía quatro características marcantes, que dificilmente são encontradas nas igrejas modernas, a não ser em algumas igrejas nos lares. A igreja do Senhor Jesus Cristo, como organismo espiritual, tinha as seguintes características principais:
  • Sempre manifestava em seu estilo de vida, a autoridade e a liderança de Jesus Cristo, opondo-se à liderança humana. Jesus Cristo é o centro e a autoridade única na igreja;
  • Ela sempre permitia e encorajava a participação de cada membro nas reuniões. Cada pessoa era um membro do Corpo, participava ativamente nas reuniões da igreja; cada crente era um sacerdote real. Cada crente edificava a igreja, contribuindo com seus dons naturais e espirituais (veja I Coríntios 14.26-27);
  • A igreja no primeiro século vivia, na prática, a teologia expressa no Novo Testamento;
  • Ela refletia o amor e relacionamento que existem na Trindade Divina.

A Hierarquia é uma coisa estranha na igreja. Uma aberração. Foi copiada dos romanos e introduzida na igreja definitivamente no quarto século, embora sua influência já se via nos escritos patrícios desde o segundo século. A igreja só possui uma cabeça - Cristo. Os outros (todos) são membros. Um membro não emite ordens a outro. Somente a cabeça (mente) o faz. O sistema nervoso transmite as ordens do cérebro diretamente da mente para todas as partes do corpo, a todos os membros. Cristo (o cabeça) também está ligado a cada cristão e lhes transmite suas ordens por meio de seu "sistema nervoso" - o Espírito Santo, que habita em cada crente.

Observando outra metáfora que o Novo Testamento usa para conceituar a igreja - uma família - podemos aprender por ela que os filhos são iguais entre si em importância. Nenhum filho manda no outro. Os irmãos mais velhos podem ser mais experientes e liderar os mais novos, mas não possuem autoridade para mandar neles. Tanto as igrejas católicas (romana e ortodoxa) quanto as igrejas protestantes nunca perceberam este erro grosseiro de aplicar na igreja a hierarquia militar/empresarial. Na igreja, só há Jesus Cristo e os membros de seu corpo; Jesus Cristo e seus filhos, todos no mesmo nível. Tanto o papado e o sistema hierárquico católico quanto os sistemas hierárquicos organizacionais das igrejas protestantes ferem a natureza da igreja cristã.

Um membro do corpo só cresce se funcionar. Este é um princípio comum a todos os organismos vivos. Cada membro precisa funcionar. Numa reunião de pequenos grupos, nos aconchegantes ambientes dos lares, isto é possível. Por outro lado, nos auditórios, nos templos, apenas poucos ministram a uma maioria que apenas... assiste. A maioria ("leigos") lê o que a minoria ("clero") manda ler. A maioria repete o que a minoria manda repetir. A maioria canta o que a minoria manda cantar. Ao invés do Sacerdócio Universal de Todos os Crentes(uma das doutrinas marcantes que a Reforma Religiosa redescobriu no Novo Testamento), as missas e os cultos protestantes praticam o "sacerdócio de alguns crentes", um modelo típico do Velho Testamento, da Antiga Aliança, que passou. Acabou.

O Novo Testamento é o guia para a igreja em todos os tempos. A igreja de hoje não pode descartar as práticas e a vida da igreja neo-testamentária, como se fossem coisas do passado.

Na Trindade Divina há um relacionamento que se refletia na igreja primitiva e deve se refletir na igreja hoje e sempre. As três pessoas de Deus se amam e são iguais entre si em autoridade (não há hierarquia entre eles). Os irmãos também devem rejeitar a hierarquia entre si (abolir "cargos e/ou títulos eclesiásticos"), e amar uns aos outros, expressando isto em ações e palavras.

Se hoje, uma comunidade quer ser uma igreja (de verdade), precisa ter essas características.


Fonte: http://igrejaorganica.blogspot.com





Os novos evangélicos e a nova reforma protestante

Publicado por @paoevinho em 07/8/10 • Categoria: Odres Novos
Por Ricardo Alexandre.
Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira.

Irani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.
Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

O cirurgião Irani Rosique (sentado, de camisa branca, com a Bíblia aberta no colo). Sem cargo de clérigo, ele mobiliza 2.500 pessoas no interior de Rondônia.
Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.
Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade”. Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.
Mais uma vez comprova-se que o fenômeno do cristianismo simples está crescendo e cada vez mais chamando a atenção tanto da Igreja institucional quanto da mídia secular . Mas não penso que o cristianismo simples ao qual a reportagem se refere seja a “recriação do Protestantismo à brasileira.” Este não é um fenômeno exclusivamente tupiniquim, muito embora o potencial de crescimento da Igreja nos lares no Brasil seja imensamente maior do que em muitos países – o que ocorre também na Igreja institucional.
O artigo está muito bem escrito, levando-se em consideração que provavelmente saiu da pena de um jornalista secular. Mas o autor comete algumas generalizações a começar pelo fato de dizer quetodo cristão não-católico no Brasil é evangélico (ver quadro acima). Mormons e Testemunhas de Jeová não se consideram e não são considerados evangélicos.
Ao ler o artigo completo (o que vemos acima é somente um trecho), vemos que o autor cita três correntes, sem se preocupar em diferenciá-las. A primeira, é a Igreja nos lares, a segunda é a Igreja emergente e a terceira é a dos blogueiros apologistas. Ele converge estas três correntes em um movimento de reação contra as exuberâncias do neopentecostalismo.
Mas a Igreja emergente, por exemplo, não se trata de uma reação ao neopentecostalismo. A Igreja emergente entende que a Igreja moderna, em geral, necessita de uma reforma e tem como enfoque construir pontes entre a Igreja e a geração pós-moderna. E apesar de a “desinstitucionalização” ser parte da pauta do diálogo emergente, muitas das comunidades emergentes são institucionais.
O artigo menciona os chamados blogueiros apologistas entre os novos reformadores, mas eles em sua maioria são somente irmãos conservadores de orientação reformada que não estão de acordo com os abusos das igrejas neopentecostais. Eles acertadamente clamam pelo regresso a uma sã doutrina, mas isso não necessariamente faz deles cristãos emergentes ou novos evangélicos.
Embora o neopentecostalismo seja a “vidraça” da vez, a Igreja nos lares tampouco é uma reação ao neopentecostalismo especificamente e sim uma alternativa ao sistema institucional de forma generalizada. Mais detalhes em meu próximo artigo sobre o assunto.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobe total de evangélicos sem vínculos institucionais

Publicado por @paoevinho em Categoria: Atualidades

O número de evangélicos que não mantêm vínculo com nenhuma igreja cresceu, informa reportagem de Antônio Gois e Hélio Schwartsman, publicada na Folha desta segunda-feira (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, eles passaram de 4% do total de evangélicos em 2003 para 14% em 2009, um salto de 4 milhões de pessoas.

Os dados do IBGE também confirmam tendências registradas na década passada, como a queda da proporção de católicos e protestantes históricos e alta dos sem religião e neopentecostais.

No caso dos sem religião, eles foram de 5,1% da população para 6,7%. Embora a categoria seja em geral identificada com ateus e agnósticos, pode incluir quem migra de uma fé para outra ou criou seu próprio “blend” de crenças – o que reforça a tese da desinstitucionalização.

Fonte: Folha.

O Dízimo na Bíblia e na História

Publicado por @paoevinho em Categoria: Odres Novos

cartoonAntes de mais nada, devo esclarecer que não sou contra a prática de dizimar, mas ao longo dos anos, depois de muito meditar sobre o assunto, me desfiz de todo tabu a respeito do tema. Tenho hoje a convicção de que o dízimo deve ser usado como uma referência de primícias ao cristão que deseja, voluntariamente, participar do privilégio de ministrar aos santos com suas finanças. Entretanto, não encontro bases bíblicas ou históricas que possam legitimar a maneira como o dízimo é ensinado e coletado pela igreja institucional. Minhas razões para alegar isso, estão abaixo:

1) Não há evidência bíblica que demonstre que a Igreja gentílica dizimava de forma obrigatória. O dízimo, como concebido na Antiga Aliança, servia para o sustento do Templo, dos sacerdotes e dos levitas. Com o fim desta Aliança, a obrigatoriedade do dízimo igualmente acabou. A Igreja gentílica neotestamentária nasceu fora deste sistema e não possuia sacerdotes, levitas ou templos. Justamente por isso, sempre que Paulo ensina sobre finanças na Igreja, fala em termos de doações voluntárias (2 Cor. 9). Portanto, o dízimo na Nova Aliança não pode ser praticado como um imposto religioso.

2) Há indícios históricos de que o dízimo deixou de ser um pagamento obrigatório com o fim da Antiga Aliança na maioria absoluta das Igrejas. Irineu, Orígenes, Justino Martir, Tertuliano, Cipriano, João Crisóstomo e outros cristãos dos séculos II ao V – cujos registros compõe a história da Igreja – nos falam somente de contribuições voluntárias na comunhão dos santos. Somente no século VI, no Sínodo de Mâcon (582), é que o dízimo começou a ser ensinado como algo obrigatório (quando se adotou a infame Teologia do Paralelismo entre a Igreja e o sistema sacerdotal/levítico veterotestamentário) e um milênio mais tarde – no Concílio de Trento – ganhou força de lei cujo não cumprimento seria punido com a excomunhão.

3) Somente algumas igrejas do Oriente dizimavam por obrigação porque interpretavam que o diálogo entre Jesus e o jovem rico (Lucas 18:18-24) ensinava a “generosidade sacrifícial”. Em primeiro lugar, esta interpretação é questionável, porque Jesus não pediu o dízimo ao jovem rico (o que supostamente já praticava) e sim que vendesse a totalidade de seus bens e desse aos pobres (o Senhor o testava porque o amor ao dinheiro era seu problema). Em segundo lugar, Deus não está interessado em ofertas feitas por obrigação. Em 2 Cor. 9:7, a palavra traduzida como “necessidade” é αναγκη (anagke), que na verdade quer dizer c0nstrangimento ou obrigação. Portanto, o versículo diz que “cada um deve dar conforme tiver proposto em seu coração, não por tristeza ou CONSTRANGIMENTO/OBRIGAÇÃO, porque Deus ama quem dá com alegria“.

4) Alguns alegam que o dízimo transcende a Lei porque veio antes da Lei (com Abraão e Jacó). Se estamos falando do dízimo voluntário, concordo em gênero, número e grau, porque tanto Abraão quanto Jacó dizimaram voluntariamente. Mas afirmar que o dízimo é obrigatório mesmo com o fim da Antiga Aliança (porque o dízimo precede a Lei) coloca a Igreja gentílica em maus lençois. O descanso sabático também aparece antes da Lei, já na primeira semana da Criação, e no entanto poucos advogam a favor de sua obrigatoriedade, com excessão de algumas comunidades sabatistas. Do mesmo modo, a circuncisão precede a Lei (Gen 17:10). Portanto, é prudente adotarmos um peso e uma medida na interpretação da Antiga Aliança: ou todos os preceitos do Antigo Testamento (como o dízimo, a circuncisão e o descanso sabático) são obrigatórios, ou a obrigatoriedade destas coisas caducou com o fim da Antiga Aliança.

5) A Antiga Aliança estabelecia 3 tipos de dízimos (Lev. 27:30-33, Num. 18:21-31 e Deut. 14:22-27 – este último a cada 3 anos). Quem ler estas Escrituras com atenção, verá que Israel tinha que dizimar 23.3% de sua renda anualmente e não somente 10%. Portanto, se vamos praticar o dízimo de acordo com a Lei, devemos ser coerentes e cumprí-la em sua totalidade. Ou damos voluntariamente ou adotamos todo o pacote mosáico.

6) Importante ressaltar também que o dízimo da Antiga Aliança nunca era pago em dinheiro, mas com lã (Deut. 18:4) e com comida (repare nas palavras de Jesus aos fariseus em Mt. 23:23). O argumento de que isso se dava porque na época não havia moeda é falso, pois o dízimo de Deut. 14:22-27 envolvia venda e compra – portanto os israelitas já dispunham de alguma moeda. O dízimo da Lei equivalia às primícias da lã da tosquia das ovelhas e dos primeiros frutos da colheita, portanto, somente os donos de rebanhos e de terras eram obrigados a dizimar. O pobre dava voluntariamente, mas não era obrigado a dizimar. Pelo contrário, o pobre colhia as sobras da colheita dos donos de terras (Dt. 24:19-21) e se beneficiava dos dízimos dos mais prósperos (Dt 26:12-13). Jesus e seus apóstolos não dizimavam, pois não eram donos de terras ou de rebanhos (eles eram considerados pobres e inclusivem se benefeciavam da Lei das sobras da colheita – Mateus 12:1-2). O imposto do templo era o único tributo compulsório pago por Jesus e seus discípulos (Mat. 17:24-27).1Portanto, a maioria daqueles que usam Malaquias 3:9-10 para ensinar sobre o dízimo, chamando o pobre que não dizima de ladrão, não tem a menor idéia daquilo que está falando. Quem obriga o pobre a dizimar, de forma legalista, não pratica o dízimo nem da Antiga e nem da Nova Aliança.

7) Uma prática antibíblica herdada da Idade Média passou por Lutero (simpático à Igreja Estatal) e se cristalizou entre nós: absolutamente nenhum pastor ou líder espiritual tem o direito de “fiscalizar” as ofertas de seus membros e/ou usar o dízimo como parâmetro para medir a espiritualidade de ninguém.Tal ato se constitui em uma arbitrariedade que contraria o ensinamento bíblico que nos diz que todo ato de caridade deve ser anônimo, algo pessoal entre aquele que oferta e o próprio Deus. E assim, o que nossa mão direita faz, a esquerda não tenha que saber (Mat 6:1-3).

8) Hoje em dia, a Igreja institucional pede dinheiro ao pobre, ensinando-o que ele tem que dizimar (caso contrário estará roubando a Deus). No entanto, ao invés de ajudar o pobre, investe em propriedades e edifica obras que permanecerão aqui depois que Jesus Cristo voltar. Para justificar tal prática, ensina que Deus um dia pagará com juros tudo aquilo que o fiel investiu na instituição religiosa. Ainda que seja verdade que Deus abençoa aquele que semeia de forma abundante, este é somente um lado da verdade. No Novo Testamento os necessitados eram abençoados por Deus por meio da Igreja, com os fundos provenientes das doações. Infelizmente, o dízimo da forma em que é ensinado e praticado na Igreja denominacional oprime o pobre, pois a Igreja somente ensina que Deus abençoará o pobre de alguma forma, em algum dia, mas recusa-se a ser parte deste processo. Assim , o evangelho deixou de ser as boas novas ao pobre (Lucas 4:18) para se tornar uma forma de opressão ao pobre.

Concluo, portanto, que ainda que o dízimo seja bíblico, a aplicação que lhe é dada nos dias de hoje está longe de ser. É nada mais que um imposto religioso que herdamos da Igreja Estatal da Idade Média.

Continua na Parte 2.
NOTA

[1] O imposto do templo era um pagamento compulsório equivalente a ½ shekel (US$ 50) pago anualmente por todos os varões com mais de 20 anos de idade, de acordo com Ex. 30:11-16.


Pão & Vinho

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