sexta-feira, 24 de junho de 2016

IGREJA NOS LARES? (IGREJA NOS LARES - UM NOVO MODISMO, OU O RETORNO ÀS PRÁTICAS PRIMITIVAS DA IGREJA?)



Todos os cristãos, sejam católicos ou evangélicos, tem seus templos onde se reúnem para suas práticas religiosas; que novidade é esta de cristãos se reunindo e partindo o pão “de casa em casa” ?

Amado leitor, com o auxílio de alguns dados históricos facilmente comprováveis e com um pequeno estudo bíblico, ficará fácil provar a você que os cristãos primitivos foram os únicos a abolirem três coisas comuns a todas as religiões antigas:

1ª) Sacrifícios e oferendas: Hb 10:8-12
2ª) A mediação de sacerdotes: Ap 1:5-6, 2:6
3ª) Reuniões em templos (ou sinagogas): 1Co 3:16, 6:19

Até o início do quarto século com a ascensão ao trono romano do imperador Constantino (312 a 337 d/C), a Igreja cristã reunia-se exclusivamente nas casas de seus membros. A adoção de um templo para reunião de cristãos foi uma invenção megalomaníaca de Constantino, posterior ao início do quarto século. Veja o que dizem três dos mais credenciados historiadores eclesiológicos da atualidade:

Em Historical Approach to Evangelical Worship (Uma Abordagem Histórica da Adoração Evangélica), página 103 e em History of the Christian Church (História da Igreja Cristã): Volume 3, página 542, SCHAFF escreve: “Depois da cristandade ser reconhecida pelo estado e autorizada a ter propriedades (pós-Constantino), ela passou a erigir templos de adoração em todas as partes do Império Romano. Provavelmente havia mais edifícios deste tipo no século IV do que houve em qualquer período da história, exceto talvez, no século XIX nos Estados Unidos...”. Em To Preach or Not to Preach? (Com ou Sem Propósitos de Oração), página 29, NORRINGTON diz que: "Na medida em que os Bispos dos séculos IV e V cresciam em riqueza, eles canalizaram tais riquezas através de um elaborado programa de construção de templos de Igrejas". Em Early Christians Speak (O Falar dos cristãos Modernos), página 74, FERGUSON afirma que: "Até a ascensão de Constantino não encontramos nenhum edifício especialmente construído para a reunião da igreja, ela se reunia em casas simples ou casas adaptadas; após a ascensão de Constantino, as construções começaram: primeiro simples salões, depois basílicas e finalmente grandes catedrais foram erigidas".

Existem na Bíblia um grande número de versículos que mostram claramente a igreja se reunindo na casa de um de seus membros, e nenhuma só referência a uma reunião da Igreja acontecendo num templo, numa sinagoga ou em algum outro local especialmente construído para esta finalidade.

Veja por exemplo os dois primeiros versículos da carta escrita por Paulo ao seu cooperador Filemon, está claramente escrito que a Igreja se reunia na casa deste irmão. Igualmente, em Colossenses 4:15, Paulo manda uma saudação à irmã Ninfa, em cuja casa se hospedava a Igreja de Laodicéia.

Os exegetas nos contam que a carta que Paulo escreveu aos Romanos, ele a escreveu enquanto estava na cidade de Corinto e por isto, em Romanos 16:23, ele envia aos irmãos de Roma uma saudação do irmão Gaio, que além de o estar hospedando naquela data, também era o hospedeiro de toda a Igreja de Corinto. Devido a este fato é que falando aos irmãos em 1Coríntios 14:23, ele traz uma direção de como proceder, quando a Igreja toda estivesse reunida no mesmo lugar (neste caso, a casa do irmão Gaio).

Preste bastante atenção em cada palavra dos seguintes textos bíblicos: Atos 12:2; Atos 21:8-14; Atos 16:40; Atos 20:17-20 e Tito 1:7-11. Porque você acha que em todos estes textos, associados à casa dos irmãos, há pessoas: congregadas, orando, profetizando, confortando uns aos outros e ensinando? Logicamente, por se tratar das atividades cotidianas da Igreja, que se reunia, exatamente nestas casas mencionadas.

O casal Áquila e Priscila sempre cooperaram com o ministério de Paulo, e também eram missionários que migravam levando o evangelho. A Bíblia menciona por duas vezes que em cidades diferentes, onde eles se encontravam, eles hospedavam a Igreja do local em suas casas. Confira isto lendo: 1Coríntios 16:19 e Romanos 16:3-5.

Um caso muito especial é o caso de Jerusalém, uma das metrópoles da época. A Bíblia diz que em Jerusalém os cristãos primitivos partiam o pão (a principal reunião da Igreja) de casa em casa (Atos 2:46), eles também ensinavam (outra importante reunião da Igreja) de casa em casa (Atos 5:42). Quando Saulo começou a perseguir esta igreja, com o propósito de prender os cristãos (Atos 8:3), ele entrava de casa em casa (porque era aí que os cristãos se reuniam). Os historiadores mencionados no início do estudo, nos contam que Jerusalém, durante o primeiro século, teve centenas de casas onde os cristãos se reuniam. Nestes dois primeiros textos, também é mencionado que os cristãos iam ao templo Judaico. Será que eles iam lá para a reunião da Igreja? Lógico que não! Você acha que os Sacerdotes que os ameaçavam (Atos 4:15-21), os espancavam (Atos 5:40) e os levavam para o cárcere (Atos 4:1-3 e Atos 5:17-18) por ensinar no nome de Jesus; iam ceder o templo Judaico para a reunião da Igreja? É irracional pensar desta forma. Eles se reuniam apenas no Pórtico de Salomão (Atos 5:12), que era uma parte do átrio exterior do templo. Esta parte era aberta também aos gentios e um local de frequentes debates e muito comércio (Mateus 21:12). Os Apóstolos iam lá com propósitos evangelísticos, conforme a Bíblia nos mostra (Atos 2: 40-41 e Atos 4:4). Que em Jerusalém os cristão se reuniam de casa em casa (isto é nas casas de seus próprios membros) é um fato bíblico e históricamente comprovado.

Outro caso muito interessante refere-se a outra metrópole da época que era Roma. O apóstolo Paulo ao escrever sua carta aos cristãos daquela cidade, saúda nominalmente um primeiro grupo: “Áquila, Priscila bem como à Igreja que se reunia na casa deles” (Romanos 16:3-5). Ele também saúda nominalmente um segundo grupo: “Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas e os irmãos que se reúnem com eles” (Romanos 16:14). E saúda ainda nominalmente um terceiro grupo: “Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas e todos os santos que se reúnem com eles” (Romanos 16:15). Vemos que existiam em Roma, pelo menos três grupos distintos de cristãos (que se reuniam em casas também distintas) por ocasião desta carta. O mais interessante é que quando Paulo chega em Roma, ele não começa a se reunir em nenhum dos locais já existentes. Ele começa um quarto grupo em uma casa que ele mesmo alugara (Atos 28:30-31). Porque isto? Será que Paulo não se dava bem com os outros três grupos de cristãos? Amados devemos entender que casas são geralmente pequenas (comportando um grupo pequeno de cristãos), e quando Paulo chegou em Roma provavelmente as outras três casas, onde os cristãos se reuniam, já estavam no limite máximo de pessoas; assim ele normalmente começou um quarto local para reunião de cristãos em sua própria casa.

Uma última explicação necessária, refere-se ao texto de Atos 20:8 onde é mencionado que os irmãos estão reunidos num cenáculo. Muitos por desconhecerem o grego, confundem um cenáculo com um templo, sinagoga ou algum outro tipo de “local mais próprio para reuniões, do que uma casa”. A palavra grega para cenáculo é “huperoon”, e significa simplesmente uma casa maior com um segundo pavimento. Veja isto claramente mostrado nos textos de Atos 1:13 (onde os cristãos estão reunidos num cenáculo, à espera do Espírito Santo) e Atos 2:2 (onde o Espírito Santo ao ser derramado enche toda a casa onde eles ainda continuavam reunidos e esperando por Ele). O cenáculo mencionado é apenas uma casa grande, com um pavimento superior (comum aos mais ricos da época).

Visando refutar esta lógica bíblica de clareza impressionante, alguns teólogos modernos, com o propósito de defender e sustentar o “denominacionalismo” tem feito três afirmações, que passaremos a analisar à seguir:

Primeiramente afirmam que a Igreja realmente começou reunindo-se nas casas de seus membros; mas que isto se deu exclusivamente por causa da perseguição imposta sobre ela; que isto durou poucos anos e que as casas e as catacumbas foram apenas locais provisórios de reunião visando fugir da perseguição. Tanto a Bíblia quanto a história desmentem estes argumentos. Lucas disse em Atos 9:31, que: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número”. Interessante notar que durante todo este período de paz, a Igreja está se reunindo nas casas de seus membros (logo o motivo de reunir-se em casas não foi a perseguição). A história também nos mostra que em termos cronológicos, a perseguição foi esporádica nos primeiros séculos e não algo permanente. Durante as perseguições, realmente os cristãos se refugiavam nas catacumbas, mas tão logo amainavam as perseguições, a Igreja voltava a se reunir no ambiente determinado pelo Espírito Santo, ou seja as casas dos irmãos, que a constituíam.

Seu segundo argumento é que tanto Jesus, quanto os apóstolos primitivos apoiavam a “reunião numa sinagora”, visto que falavam e participavam de reuniões em tais lugares. Dizem eles que o moderno templo (seja católico ou evangélico), é algo derivado da sinagora, e que sendo assim, o fato de Jesus e os apóstolos tê-los freqüentado, credencia os templos atuais, como locais de reunião da Igreja. Eles se esquecem que os Judeus haviam determinado, conforme vemos em João 9:22 e João 12:42 que se alguém se tornasse cristão, deveria ser expulso das sinagogas. Sinagora, é lugar de reunião de Judeus não de cristãos. Jesus e os apóstolos primitivos eram Judeus, por isto participavam das reuniões dos Judeus. Da mesma forma, que com relação ao templo de Jerusalém, os cristãos primitivos iam às sinagogas com propósito evangelístico como vemos em Atos 14:1 e Atos 18:4. Não existe menção de uma só “reunião da Igreja” acontecendo numa sinagora. Sinagora e templo são culturas cultura judaicas ou pagãs, não fazem parte da Igreja e do cristianismo primitivo. Por entrarem lá os cristãos primitivos não os estavam avalizando (como local para reunião da Igreja), e sim os utilizando com propósitos específicos (1Coríntios 9:20-23).

Um terceiro argumento destes teólogos modernos, é que o significado da palavra grega da qual veio nosso vocábulo Igreja, seria “os chamados para fora de suas casas”. Isto soa forte e impressiona, devido a não temos conhecimento do grego. Assim engolimos tal afirmação, como sendo um forte argumento. Entretanto o vocábulo grego “ekklesia”, do qual veio nossa palavra “Igreja”, é composto de duas outras palavras, “ek + kaleim”. A palavra “Kaleim” significa simplesmente “chamados” e o prefixo “ek” significa “para fora”. Então o significado de Igreja é “os chamados para fora”. A palavra grega para casa é “oikos”, e não está presente no vocábulo Eklesia (Igreja). Porque então traduzir Igreja como “os chamados para fora de suas casas”? Se queremos aclarar a explicação do vocábulo, não seria mais lógico e bíblico dizer que a Igreja é o conjunto dos “chamados para fora”, do sistema mundano e carnal criado e mantido pelo diabo. Assim sendo, preferimos ficar com aquilo que a bíblia diz, pois tememos acrescentar algo à Palavra de Deus (Apocalipse 22:18).

Os versículos e argumentos acima são mais que suficientes para provar a qualquer cristão sincero, que não há comprovação bíblica e nem histórica (pelo menos até o início do quarto século) para reuniões da Igreja em nenhum tipo de lugar que não sejam as próprias casas de seus membros! Seria tão estranho para os cristãos primitivos se reunirem em templos, como é estranho para alguns cristãos atuais reunirem-se em casas.
Más reunindo-se em tantos locais (casas) diferentes, em uma mesma cidade, isto não irá produzir grande divisão entre os cristãos, quebrando assim a unidade da Igreja na cidade?

Tanto a Bíblia quanto a história desmentem este conceito, Reunir-se em várias casas (e nelas partir o pão), foi a realidade da Igreja Primitiva, e nunca a dividiu. A Mesa (princípio de comunhão) continuou única, apesar de estar presente em vários locais. O que divide não são os muitos locais de reunião e sim algumas atitudes do coração de quem está se reunindo. Veja isto: Marcos 7:21-23 - 1Coríntios 3:3-6 - Gálatas 2:6-10 - 1João 1:1-3.

Quando nos recusamos a ter comunhão (um anti-tipo da Mesa) com irmãos genuinamente salvos, aí sim estamos dividindo o Corpo de Cristo. Aquele que Cristo aceitou, tem comigo unidade de espírito, porque eu também fui aceito por Ele. Ainda que não tenhamos chegado à unidade de fé, podemos ter comunhão. Veja isto em Efésios 4: 3-16. Esta postura realmente divisiva, é vista claramente na conduta do Presbítero Diótrefes (3João 9-11); que desejando ter a primazia (proeminência) entre os demais presbíteros, agia de maneira arbitrária e intransigente, se recusando a receber na comunhão outros irmãos cujo pensamento diferia do dele (incluindo entre estes o próprio apóstolo João); tentando impedir os demais irmãos da Igreja de recebê-los e chegando até mesmo a ameaçá-los com a expulsão da igreja.

Finalizo esta reflexão com uma última pergunta. Se ao construir sua casa material (o tabernáculo judaico), Deus deu um projeto preciso a Moisés e não permitiu nenhum acréscimo a este projeto original (Êxodo 25:9), será que na construção da sua casa espiritual, que é a Igreja (1Pedro 2:5), Deus permitiria tais acréscimos?

A pergunta correta não é porque nos reunirmos de casa em casa, já que isto faz parte do projeto original de Deus, para sua Igreja. A pergunta correta a ser feita é, onde obtivemos permissão para nos reunirmos de forma contrária ao projeto original. Se negligenciarmos este ponto fundamental da reunião da Igreja, a negligência em outros pontos também virá, será apenas uma questão de tempo (Lucas 16:10)!

Fonte: http://www.irmaosemsamonte.com.br/portal/igreja-nas-casas.html

A igreja que eu quero ser...



















A igreja que eu quero ser...
A igreja que eu quero ser não tem hora de culto, o culto nem é uma cerimônia. 
A igreja que eu quero ser cultua em todo tempo porque cultua com a vida, vivendo.
A igreja que eu quero ser não é de parede e teto, ela é feita por mim e por você. 
É feita de gente, e gente imperfeita. 
Gente que erra, gente que falha, gente que tropeça. 
É feita de gente que ama e que ama ser amado. 
Gente que sorri mas que também chora.
Gente que sofre com as mazelas do mundo.
A igreja que eu quero ser é uma igreja que se importa com a fome, com o sofrimento.
A igreja que eu quero ser sente a fome do faminto, sente a sede do sedento, sente o frio do desabrigado, sente a dor do doente.
A igreja que eu quero ser mostra o caminho da salvação, mas não tem os direitos da via nem cobra o pedágio da ponte.
A igreja que eu quero ser ilumina a estrada como um farol, para que todos possam passar pela ponte, e a ponte é Jesus.
A igreja que eu quero ser não tem nome, não tem placa nem mesmo uma sede. 
Ela está em mim e está em você. 
Quem a governa é Deus e o seu credo não está decorado. 
A base dessa igreja é o amor, o amor não fingido.
Nessa igreja não tem banco, nem mesmo liturgia. 
Nessa igreja você não precisa baixar a cabeça pra falar com Deus.
Ali você deve ficar de olhos bem abertos ao ouvir a voz de Deus, pois ele te manda olhar para o lado, te manda ver o teu irmão.
Nessa igreja pouco importa a duração do culto, pois o culto dura o tempo todo. 
Importa mesmo é que você seja essa igreja.
Você não precisa de roupa certa para vir nessa igreja.
Não importa o que você tem pintado na sua pele, nem mesmo importa a sua pele. 
Nessa igreja todos somos igreja. 
Também não há cargos ou obrigações nessa igreja, você não é obrigado a nada.
Eu quero ser essa igreja, eu estou tentando...

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Semper Reformanda: sopros do Espírito na atualidade


Particularmente, penso que os “ventos de uma nova reforma” que sopram em nossa geração não se tratam de “ventos de doutrina” ou simplesmente mais um modismo. Acredito tratar-se da jornada da Ekklesia rumo aos princípios básicos do Reino (comunhão, intercessão e proclamação) sem o peso ou a distração de construções históricas, emblemas religiosos ou qualquer outra coisa que tenha surgido como um “meio” e acabou se tornando um fim em si mesma (quem lê entenda).
Nas palavras dos Reformadores do século XVI, “Ecclesia semper reformanda est” (A Igreja está sempre se reformando). Reforma, em nossos dias, é o resgate da simplicidade daquele que ingenuamente lança mão da boa semente sem a prentenção de programar ou controlar seu crescimento. É a volta da Comunidade Divina ao seu estágio embriônico, permitindo que ela nasça, cresça, se multiplique e toma sua forma naturalmente, de acordo ao seu DNA divino, sem a interferência de nossos moldes pré-concebidos.
Photo credit: followtheseInstructions @ Flickr | Some rights reserved : free to share and  adapt (Creative Commons)
Sei que não é fácil para muitos entenderem a variedade de terminologias que estão sendo empregadas na blogosfera para expressar a mensagem que o Espírito está soprando sobre a Igreja nos dias atuais. Escrevi este artigo na tentativa de esclarecer alguns conceitos que têm sido discutidos nos últimos anos e também na tentativa de condensar muito daquilo que já escrevi anterioremente.
Alguns termos são usados de forma intercambiável, o que não é incorreto, mas quero “esmiuçar” a ênfase distinta que cada um deles acrescenta à nossa visão de Igreja. Assim, sem a pretensão de dar a última palavra no tocante à certas definições, tentarei explicar algumas delas de acordo com meu entendimento pessoal:

Igreja nos lares

Mudança de imagem: ainda que muitos entendam que o local de reunião de uma igreja, em si, não determina sua identidade, hoje em dia entende-se mais e mais que a porta de entrada para a Igreja deve ser a família (por isso a ênfase nos lares como ponto de encontro da Ekklesia).
A Igreja nos lares não sacraliza as casas como “o átrio sagrado, o santo dos santos e lugar exclusivo das reuniões da Igreja”. 1 Não se trata de uma questão meramente geográfica. A propósito, se a Igreja está fundamentada de forma correta, ela pode até se reunir em auditórios, conforme a necessidade, sem por isso sucumbir ao “complexo de edifício” (quando a identidade da Igreja se funde ao “templo”, não podendo mais ser disassociada dele).
Portanto, a Igreja nos lares não propõe uma mudança geográfica e sim de fundamento. O epicentro da Igreja nos lares é a mesa da comunhão e não o púlpito. Ela está estruturada em torno da família e não em eventos religiosos. O eixo que move a Igreja são as relações pessoais e não programas.
Quando um incrédulo olha para a Igreja, ele deveria ver um grupo de pessoas que convivem, se amam e se servem entre si, e não um programa com música e sermões espetaculares. Os de fora não devem enxergar a Igreja como uma empresa e sim como uma FAMÍLIA, pois o Senhor Jesus disse que a marca de nossa identidade perante o mundo é o amor que deve haver entre nós (Jo 13:35).
A Igreja nos lares denuncia uma Igreja que possui uma mensagem correta, mas uma expressão distorcida, pois não produz comunidade, somente programas.

Igreja simples

Mudança de estrutura: é a eliminação de qualquer bagagem que não seja essencial à nossa ortodoxia – templos, rígidas liturgias, castas clericais, títulos, vestimentas especiais, credenciais acadêmicas como requisito para o ministério, 2 etc.
A Igreja neotestamentária possuia uma certa estrutura sem operar como uma empresa, assim como o corpo humano possui diversos sistemas (digestivo, linfático, nervoso, etc.) sem se tornar um robô. A Igreja simples denuncia uma Igreja que se tornou uma empresa extremamente complexa, burocrática e vagarosa, e propõe um retorno à simplicidade do Evangelho em vários aspectos, principalmente no tocante à liturgia e ao ministério dos santos.

Igreja orgânica

Mudança de sacerdócio: propõe que cada membro, e não somente uma aristocracia espiritual, deve exercer seu sacerdócio.
A Igreja não é uma organização, cujas partes são artificialmente costuradas por estruturas humanamente fabricadas. Ela é um organismo em que, por meio de juntas e medulas bem conectadas (relacionamentos sólidos), os membros funcionam de maneira sinérgica, 3 como os membros de um corpo biológico, e ministram entre si de acordo ao seu dom espiritual (sacerdócio universal), pois “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” ( Ef. 4:16).
A Igreja orgânica denuncia que muitos dos aparatos institucionais inibem a manifestação da multiforme sabedoria de Deus na Igreja, pois condicionam seus  membros a serem meros expectadores de um evento religioso conduzido por cantores e pregadores profissionais.

Igreja missional

Mudança de prioridades: a Igreja missional é um povo com uma missão. Não gira somente em torno de sua própria existência como instituição (eclesiocentrismo), mas traz em si um enfoque missiológico, chamando seus membros para fora de sua zona de conforto, desafiando-os a olhar ao seu redor e a alcançar sua comunidade por meio da generosidade sacrificial.
Pretende derrubar a falsa dicotomia entre “discipulado versus evangelismo” ou “evangelismo versus ação social”, pois todas estas coisas caminham juntas. Propõe a demolição dos muros da religiosidade que separam os cristãos dos “pecadores”, convocando seus membros a “comerem com os publicanos” e a servirem os necessitados ao seu redor com seu tempo, talentos e finanças.
A Igreja missional dissolve os guetos sagrados e insere a Igreja em seu contexto social. Denuncia a pregação de uma mensagem individualista que se resume em salvar o homem do inferno, mas que não o ensina a manifestar o Reino de Deus entre os pecadores. Aponta para uma Igreja ensimesmada cujos santos gastam a maior parte de seu tempo enfurnados em programas igrejeiros e a maior parte de suas finanças em estruturas eclesiásticas. 4

Conclusão

Penso que estes quatro pontos, balanceados entre si, refletem a Igreja que nosso Senhor Jesus espera que sejamos nos dias atuais: uma Igreja que nasça na intimidade dos lares, que seja simples, orgânica e missional.
Não creio que estas nomenclaturas representem necessariamente movimentos distintos, mas refletem um mover de Deus que está se difundindo nos últimos anos na Igreja de nosso Senhor como um todo, tanto dentro como fora do institucionalismo cristão. Não  existe um movimento que encapsule estas qualidades de forma exclusiva, pois o vento do Espírito sopra onde quer (Jo 3:8). 5 Digo isso porque é importante notar que até mesmo parte da Igreja institucional tem sido impactada por estas ondas de reforma e muitas comunidades de transfundo denominacional têm buscado mudanças no intuito de desenvolver uma expressão mais orgânica de Igreja. 6
Vejo que, no passado, todas estas coisas vinham sobre o Corpo de Cristo como uma brisa suave e discreta, mas que nos últimos anos têm ganhado mais intensidade. Já posso sentir um vento forte que sopra e que, embora ainda não tenha causado nenhum rebuliço de grandes proporções, já faz ruído e pode ser ouvido por muitos tanto nas casas como nas basílicas. Ao longo da história da Igreja, muitos confundiram o sopro do Espírito com ventos de doutrina, fechando-se ao mover de Deus em suas gerações. De certo, não está sendo diferente em nossos dias. Entretanto,  este ruach de Deus se intensificará mais e mais à medida que o dia da volta de nosso Senhor Jesus se aproxima, adornando a Noiva para seu encontro com seu Noivo.
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NOTAS:
  1. Se há um “argumento teológico” por trás da prática de reunir-se nos lares certamente este argumento não seria o de que as casas são “o único lugar autorizado e bíblico” para as reuniões da Ekklesia, e sim o de que na Nova Aliança já não existem mais locais sagrados e especiais para reuniões, o que torna biblicamente injustificada a prática de se gastar tanto dinheiro na construção e manutenção de uma estrutura física que consome a maior parte dos recursos financeiros da Igreja. ↩
  2. A formação acadêmica não representa necessariamente um problema, desde que se entenda que o que forma um mestre do Reino não é o seu diploma teológico e sim o seu dom natural. Mestres são reconhecidos e estabelecidos na Igreja por naturalmente operarem no dom de ensino, e não pelo reconhecimento de uma instituição terrena. Particularmente, conheço excelentes mestres do Reino que jamais passaram por um instituto bíblico, assim como conheço ótimos mestres que obtiveram formação acadêmica para aprimorarem seu dom. Biblicamente falando, entretanto, a formação acadêmica não deve ser um requisito para a obra do ministério. As heresias não se propagam na Igreja pela falta de treinamento acadêmico, e sim por causa daqueles que operam fora de seu dom (por exemplo, profetas ou evangelistas que se aventuram a ensinar doutrina). Precisamos de eruditos nas linguas originais e em outras áreas teológicas, mas a formação acadêmica não eleva o obreiro a um nível superior aos demais membros do presbitério, pois as Escrituras nos ensinam que nem todos os presbíteros foram chamados a ensinar a Palavra (1 Timóteo 5:17), mas no entanto são presbíteros juntamente com os mestres do Reino. Mestres operam em igualdade e submissão a outros membros do presbitério local (profetas, evangelistas e pastores). A especialização, nestes termos, pode ser conquistada por aqueles que assim desejarem. ↩
  3. Por definição, “sinergia” é a ação simultânea e sincronizada de diversos órgãos ou músculos, na realização de uma função. ↩
  4. Curiosamente, nas Escrituras as pessoas vendiam suas terras para alimentar os pobres da Igreja. Hoje, a Igreja pede dinheiro ao pobre para comprar terras, gastando mais dinheiro com estruturas eclesiásticas do que com os necessitados. Não seria esta uma inversão de prioridades? ↩
  5. Sempre parto do pressuposto de que não existe uma maneira exclusiva de se expressar como Igreja, seja institucionalmente ou nos lares. O que há são maneiras mais simples e ágeis de se organizar, versus maneiras mais complexas e burocráticas. ↩
  6. Assim como tenho consciência de que este mover esteja alcançando a Igreja institucional, sou igualmente consciente dos muitos obstáculos que uma Igreja institucional terá para responder positivamente a este mover, devido à necessária desconstrução de certos paradigmas e sistemas embutidos na tradição herdada por ela. ↩

domingo, 12 de junho de 2016

Era uma Igreja muito engraçada ...



Essa noite, eu tive um sonho de sonhador, sonhei com uma igreja esquisita. Ela não tinha muros, piso, púlpito, bancos ou aparelhagem de som. A igreja era só as pessoas. E as pessoas não tinham títulos ou cargos, ninguém era chamado de líder, pois a igreja tinha só um líder, o Messias. Ninguém era chamado de mestre, pois todos eram membros da mesma família e tinham só um Mestre. Tampouco alguém era chamado de pastor, apóstolo, bispo, diácono ou Irmão. Todos eram conhecidos pelos nomes, Maria, Pedro, Afonso, Julia, Ricardo...

Todos os que criam pensavam e sentiam do mesmo modo. Não que não houvesse ênfases diferentes, pois Paulo dizia: “Vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem das obras, para que ninguém se glorie”, enquanto Tiago dizia: “A pessoa é aceita por Deus por meio das suas obras e não somente pela fé”. Mas, mesmo assim, havia amor, entendimento e compreensão entre as pessoas e suas muitas ênfases.

Não havia teólogos nem cursos bíblicos, nem era necessário que ninguém ensinasse, pois o Espírito ensinava a todos e cada um compartilhava o que aprendia com o restante. E foi dessa forma que o Agenor, advogado, aprendeu mais sobre amor e perdão com Dinorá, faxineira.

Não havia gente rica em meio a igreja, pois ninguém possuía nada. Todos repartiam uns com os outros as coisas que estavam em seu poder de acordo com os recursos e necessidades de cada um. Assim, César que era empresário, não gastava consigo e com sua família mais do que Coutinho, ajudante de pedreiro. Assim todos viviam, trabalhavam e cresciam, estando constantemente ligados pelo vínculo do amor, que era o maior valor que tinham entre eles.

Quando eu perguntei sobre o horário de culto, Marcelo não soube me responder e disse que o culto não começava nem acabava. Deus era constantemente cultuado nas vidas de cada membro da igreja. Mas ele me disse que a igreja normalmente se reunia esporadicamente, pelo menos uma vez por semana em que a maioria podia estar presente. Normalmente era um churrasco feito no sítio do Horácio e da Paula, mas no sábado em que eu participei, foi uma macarronada com frango na casa da Filomena. As pessoas iam chegando e todos comiam e bebiam o suficiente.

Depois de todos satisfeitos, Paulo, bem desafinado, começou a cantar uma canção. Era um samba que falava de sua alegria de estar vivo e de sua gratidão a Deus. Maurício acompanhou no cavaquinho e todos cantaram juntos. Afonso quis orar agradecendo a Deus e orou. Patrícia e Bela compartilharam suas interpretações sobre um trecho do evangelho que estavam lendo juntas. Depois foi a vez de Sueli puxar uma canção. Era um bolero triste, falando das saudades que sentia do marido que havia falecido há pouco tempo. Todos cantaram e choraram com ela. Dessa vez foi Tiago que orou. Outras canções, orações, hinos e palavras foram ditas e todas para edificação da igreja.

Quando o sol estava se pondo, Filomena trouxe um enorme pão italiano e um tonelzinho com um vinho que a família dela produzia. O ápice da reunião havia chegado, pela primeira vez o silêncio tomou conta do lugar. Todos partiram o pão, encheram os copos de vinho e os olhos de lágrimas. Alguns abraçados, outros encurvados, todos beberam e comeram em memória de Cristo.

Acordei com um padre da Inquisição batendo à minha porta. Junto dele estavam pastores, bispos, policiais, presidentes, ditadores, homens ricos e um mandado de busca. Disseram que houvera uma denúncia e que havia indícios de que eu era parte de um complô anarquista para acabar com a religião. Acusaram-me de frequentar uma igreja sem líderes, doutrina ou hierarquia; me ameaçaram e falaram: “Ninguém vai nos derrubar!”. Expliquei: “Vocês estão enganados, não fui a lugar nenhum, não encontrei ninguém ou participei de nada... aquela é apenas a igreja dos meus sonhos”.

por: Tonho [foi coordenador do UG -Min. Jovem do Portas Abertas]

sábado, 11 de junho de 2016

Nem Todas As Igrejas Nos Lares São Igrejas Orgânicas


 Marcio S. da Rocha
Hoje em dia, a expressão “igreja orgânica” virou quase uma “moda eclesial”, e quase um sinônimo de igrejas nos lares. No entanto, existem muitas igrejas funcionando em lares, mas nem todas são, de fato, igrejas orgânicas. Não é pelo simples fato de alguns irmãos se reunirem em seus lares, que isto caracteriza uma igreja orgânica. Neste artigo abordaremos alguns tipos de igrejas e grupos que se reúnem nos lares, mas que não se constituem autênticas igrejas orgânicas, com o objetivo de ajudar àqueles irmãos que têm sido despertados pelo Espírito Santo a buscarem uma forma neotestamentária de igreja, para que não se envolvam com grupos eclesiásticos não-orgânicos que não serão tão abençoadores para suas vidas.
O primeiro tipo de igreja em um lar que não é orgânica, e é bem fácil de perceber, é compreendido pelas igrejas que imitam as igrejas institucionais, tanto na estrutura hierárquica, quanto na forma de culto. Essas igrejas não passam de mini-igrejas institucionais. Possuem pastores (clérigos), e conseqüentemente, os demais irmãos são “leigos”. As reuniões dessas igrejas seguem uma liturgia rígida e essencialmente igual às das igrejas institucionais. O louvor é dirigido por alguém que ocupa a função (ou cargo) de ministro de louvor e nelas são feitos sermões pelo pastor. Algumas até usam aqueles hinários pretos tradicionais. Muitas vezes, embora não se possa generalizar, tais igrejas são formadas por irmãos magoados e decepcionados com certas denominações ou igrejas, porém, que não se conscientizaram que as práticas eclesiais das igrejas institucionalizadas não encontram guarida no Novo Testamento; por isso, continuam imitando seus métodos. Estão nos lares mas não são igrejas orgânicas.
Existem igrejas nos lares (ou organizações que agrupam diversas igrejas nos lares) que sãoexclusivistas. Este tipo também não é orgânico, e constitui um dos tipos mais danosos de igreja. As igrejas nos lares que são exclusivistas pregam que todos os irmãos das demais igrejas não estão salvos – especialmente os irmãos das igrejas institucionais. Apenas os irmãos que se congregam com eles estão salvos. Uma igreja orgânica jamais pregaria isto. A igreja do Senhor é constituída de pessoas, e por isso, não importa a denominação ou a comunidade à qual uma pessoa freqüenta; se ela recebeu a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, ela é salva e é irmã em Cristo. As igrejas orgânicas não concordam com as práticas das igrejas modernas, mas são plenamente conscientes de que Deus também salva e abençoa pessoas por meio das igrejas institucionalizadas. Igreja não salva, não importa se é orgânica ou não. Essas igrejas exclusivistas geralmente se autodenominam como “a igreja”, evidenciando seu caráter exclusivista. Ao buscar uma igreja orgânica, o irmão ou a irmã deve fugir desse tipo de igreja exclusivista.
As igrejas em células e as igrejas de pequenos grupos também se reúnem nos lares, no entanto, não são igrejas orgânicas ou neotestamentárias. Para não ser repetitivo com relação às características desses tipos de igrejas e às suas diferenças significativas em comparação com as igrejas orgânicas, remeto ao meu artigo “Qual A Diferença Entre Os Pequenos Grupos E As Igrejas Nos lares?” postado neste blog (www.igrejaorganica.blogspot.com).
Há outro tipo de igrejas nos lares que também não são autenticamente orgânicas, embora possuam muitas práticas eclesiais neotestamentárias. São aquelas que se congregam prioritariamente com base na amizade entre seus membros. Poderíamos chamá-las de igrejasrelacionais. Nessas igrejas, os relacionamentos são colocados acima de tudo. Os congregantes dessas igrejas não fazem questão de saber como o outro pensa, com relação à doutrina cristã. Um participante da igreja pode até adotar uma doutrina herética (não bíblica), e estar normalmente participando da igreja relacional (como se fosse irmão) sem qualquer problema, pois, para os participantes desse tipo de igreja, qualquer doutrina que venha a atrapalhar a amizade entre irmãos, não lhes interessa. Poderíamos classificá-los no campo da teologia comoliberais (não ortodoxos). As igrejas relacionais também apresentam outra característica que as difere sutilmente de uma autêntica igreja orgânica. É que, embora elas se reúnam nos lares de seus membros, não consideram que o lar seja o lugar ideal para a reunião da igreja. Assim, defendem que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito, é uma igreja.
Por outro lado, as igrejas orgânicas também valorizam os relacionamentos e buscam o aprofundamento da amizade entre os irmãos. Neste contexto, elas são também relacionais. Porém, valorizam acima de tudo as doutrinas centrais do Cristianismo (Bíblia como revelação de Deus; Trindade; Pecaminosidade humana; Justificação/Salvação pela fé em Cristo etc.), e não consideram como irmão alguém que negue ou altere essas doutrinas. As igrejas orgânicas são Cristocêntricas e bíblicas. As igrejas orgânicas se dedicam ao estudo das Escrituras com fervor, assim como faziam as igrejas do primeiro século: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações.” (Atos 2.42). Entretanto, apesar de não “negociarem” as doutrinas essenciais, os irmãos das igrejas orgânicas respeitam a posição de cada um quanto às doutrinas periféricas, ou secundárias, e convivem em paz. Valorizar os relacionamentos é orgânico; porém, colocá-los acima da sã-doutrina não é.
Há ainda as igrejas nos lares com ênfase no crescimento numérico, na multiplicação de igrejas. Essas se consideram cumpridoras fiéis da grande comissão, por meio de reuniões nos lares. Elas exaltam o crescimento quantitativo e a descentralização organizacional total daquilo que chamam de “Movimento Igreja Orgânica”. De modo parecido com o tipo descrito anteriormente, as igrejas multiplicadoras também postulam que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito (principalmente evangelístico), é uma igreja.
Nenhuma dessas igrejas descritas neste artigo é orgânica, embora sejam igrejas nos lares. Apesar da aparência orgânica, essas igrejas são fruto de uma elaboração ou alteração humana, portanto, são igrejas “transgênicas”. Sugiro que o leitor complemente a leitura do presente artigo lendo meu outro artigo “Características das Igrejas Orgânicas”, postado no blog www.igrejaorganica.blogspot.com no mês de fevereiro de 2010.
Encerro citando Frank Viola, no seu parágrafo sobre a vida orgânica da igreja:
“Vida orgânica da Igreja é algo profundamente simples, porém, infinitamente complicado. Satisfaz os anseios mais profundos do espírito humano, mas frustra a alma e traz lances de morte à carne. É, ao mesmo tempo, gratificante e enlouquecedora. É sem dúvida a maior experiência espiritual que um mortal pode conhecer. Por quê? Simplesmente porque Deus escolheu a ekklesia em sua expressão orgânica para revelar as glórias e a riqueza do seu Filho amado, o Senhor Jesus Cristo, e para trazer a esta terra a comunhão que existe dentro da Trindade.”

As Igrejas que estão nas casas possuem níveis diferentes de maturidade?





A nossa experiência de igreja depende da nossa experiência de Cristo. Quanto mais experimentamos Cristo, mais experimentaremos a realidade da igreja verdadeira, porque a Cabeça e o Corpo são um. Se em um grupo houver várias pessoas que experimentam mais Cristo, certamente esse grupo expressará mais os atributos de Cristo. Isso significa que haverá grupos mais próximos do ideal da Palavra e outros mais distantes, mas todos estamos no mesmo caminho; todos nós humildemente estamos em direção ao Reino, em meios a todas as adversidades que sobrevém a todos os filhos de Deus na face da Terra.
Alguns irmãos começam a se reunirem nos lares carregados de expectativas. Eles esperam finalmente encontrar um grupo perfeito. Entretanto, não podemos nos esquecer que, se encontrássemos um grupo perfeito, esse grupo talvez não aceitasse nossas muitas imperfeições.É bom não criar expectativas e viver apenas pela fé no que o Senhor lhe falar ao coração e nas promessas da Sua Palavra santa. Se você quiser que o grupo com o qual reúne esteja cheio de Cristo então, quem sabe, não é o momento de você primeiramente estar mais cheio de Cristo? Dê o exemplo e, por seu exemplo, influencie os irmãos positivamente, mas não espere resultados imediatos.
Estamos em um processo muito doloroso de abandonar a religiosidade e velhos conceitos que nos aprisionaram em um viver religioso de falar muito e pouco viver. Por isso, haverá barulho, poeira e até um pouco de confusão nos primeiros anos da vida da igreja. Precisamos entender esse processo. Nosso maior sonho é que pudéssemos apertar um botão e uma uma igreja perfeita caísse na nossa sala, com irmãos perfeitos e maravilhosos, sorrindo e nos ajudando em todas nossas dificuldades. Não é assim que as coisas funcionam. A igreja é um organismo vivo. Trata-se, portanto, de uma questão de vida e, como no caso de uma lavoura, exige-se cuidado, dedicação, paciência e tempo. Precisamos regar nossos relacionamos, adubar com bons nutrientes, produzir amizades saudáveis e arrancar as ervas daninhas que eventualmente possam aparecer. Assim como um edifício em fase inicial, o início da vida da igreja normalmente não é algo belo, pode até mesmo ser barulhento e bagunçado. Normalmente, existe uma fase de empolgação inicial e, depois, vem uma fase de arrancar as pedras do nosso interior, voltar a prática das primeiras obras (oração, leitura da Palavra, jejum etc.). Às vezes, alguns irmãos nos abandonam porque “não era bem isso que eles queriam“.Não os julgueNão espere retornoFaças as coisas para o Senhor somente e não para os homens. Algumas vezes, também há uma fase de deserto, onde toda aquela exuberância de vida e empolgação vai embora. As revelações passam a ser menos frequentes. Nesse momento, Deus nos ajudará a lançar nossas raízes mais fundo em direção aos mananciais escondidos. Já não vamos ter tantas coisas para fazer ou tantos compromissos. Vamos ser chamados para experimentar versículos como Jeremias 17:7-8 – Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto. Graças a Deus que, assim como as fases da Lua ou as estações do ano, as fases da igreja também são dinâmicas. A fase de maturidade costuma demorar para vir, mas creia, ela virá. Quando houver um fundamento sólido em nossas vidas (isto é, quando começarmos a praticar o que falamos– veja Lc 6:47-48), Deus enviará mais pessoas. Não desanime. Às vezes, duvidamos até mesmo que essa obra será concluída. Precisamos por isso, de vez em quando, olhar para a planta nas mãos do Arquiteto. Ele sabe que vai concluir Sua obra (Fp 1:6).
Seja qual for a fase pela qual estejamos passando, não podemos nos esquecer que nascemos nesta Terra com um objetivo. Não viemos aqui apenas para ter uma boa vida e depois partir.Quando nos unimos ao Senhor também nos unimos ao Seu ministério de edificar o Corpo de Cristo. Não somos apenas ouvintes (Tg 1:22; 1 Jo 3:18). Não estamos na vida da igreja para analisar grupos e pessoas, como pesquisadores dissecando um cadáver. Estamos aqui para trabalhar (Jo 20:21). A ceara é grande e poucos são os ceifeiros. É hora de arregaçar as mangas e ouvir nosso Mestre: – Senhor Jesus, que queres que eu faça hoje, neste exato momento?Pode ser orar, louvar, visitar alguém ou até mesmo ficar aos seus pés quieto, ouvindo-O. No sistema religioso, nos acostumávamos a aguardar que os lideremos falassem com Deus e depois nos repassassem as orientações devidas, como Moisés fazia com o povo de Israel. Essa Aliança passou. Isso acabou. Precisamos reaprender a ouvir a Jesus e a Ele somente (leia Lucas 9:35 e 1 Jo 2:27). Quando esses fundamentos estiverem prontos, poderemos avançar para os demais estágios desse grande edifício de Deus: a igreja. Enquanto a maturidade não chega, vamos aproveitar bem a infância, a adolescência e a juventude da igreja na qual o Senhor nos plantou. Lembre-se: plante sempre, regue sempre, e se alegre sempre, pois o crescimento virá, sempre, de Deus! (1 Co 3:6).

Fonte: http://igrejanoslares.com.br/

Ceia do Senhor: banquete ou aperitivo?

por Hugo

É curioso o fato de o Senhor Jesus não ter deixado nenhum estatuto de natureza doutrinária, administrativa ou litúrgica a seus discípulos, de ter falado muito pouco da Igreja nos Evangelhos mas, no entanto, ter deixado duas ordenanças a serem observadas pela Igreja: o batismo e a Ceia – o que nos mostra a importância destes atos proféticos para Deus: o batismo é a iniciação de nossa fé, e a Ceia é a confirmação da mesma ao longo de nossa caminhada cristã.
É unânime o entendimento da importância e do significado da Ceia na Igreja como um memorial ao sacrifício vicário de Cristo a nosso favor. Entretanto, recentemente, um diálogo tem sido encorajado entre os irmãos no tocante a três aspectos da Ceia do Senhor: o formato, o espírito e o propósito em que ela é celebrada.
Assim como outros irmãos, particularmente entendo que milênios de tradição eclesiástica alteraram o entendimento destes aspectos e omodus operandi da Igreja quanto à Ceia. Esta série de artigos visa dar a minha contribuição neste diálogo. O título e alguns termos que usarei ao longo destes artigos podem soar um pouco provocadores, mas esclareço que minha intenção não é ridicularizar, nem mesmo mudar aquilo que milhões de irmãos praticam por todo o mundo. O propósito é fazer-nos refletir sobre algumas tradições que herdamos de nossos pais na fé e esclarecer certas práticas e entendimentos diferentes que estão emergindo em nossa geração no tocante a esta importante ordenança.

A prática dos primeiros cristãos

Era comum entre os primeiros cristãos observar a Ceia em um formato de celebração, ou seja, como uma refeição literal. Além de [1] observar um memorial ao sacrifício vicário de Cristo a nosso favor, a Ceia também tinha o propósito de [2] criar um ambiente de comunhão e fraternidade entre os irmãos (2 Ped. 2:13, Jd 12) e [3] prestar solidariedade e ajuda aos irmãos mais pobres da Igreja (1 Cor. 11:17-34).
A Igreja primitiva era uma rede de cristãos que se reuniam de casa em casa para juntos adorarem o Senhor Jesus. A mesa da comunhão era o epicentro desta celebração. O “partir o pão” (Atos 2:46) era um elemento tão importante desta celebração quanto os salmos, orações e a meditação das Escrituras que hoje tanto prezamos. A Ceia era uma celebração que fazia parte do cotidiano dos discípulos; não era um ritual litúrgico realizado no primeiro domingo de cada mês e sim uma celebração em família.
Há algo na comida que estimula o espírito fraternal e, sabendo disso, não poucas vezes Jesus ministrou enquanto compartilhava uma refeição com seus discípulos. Por isso, a Ceia, apesar de não ser uma refeição como qualquer outra (pois possui um significado espiritual), nos seus primórdios era tão literal a ponto de, até mesmo, ser confundida com um banquete qualquer (esse foi juntamente o problema que estava ocorrendo em Corinto, como veremos mais adiante).
1 Cor 11:23-28 é uma das passagens mais lidas em nossas igrejas na celebração da Ceia do Senhor. Poucos atentam, porém, para o fato de, em 1 Cor 11, Paulo usar a palavra grega δεῖπνον (deipnon) para se referir à Ceia. Δεῖπνον se refere à PRINCIPAL refeição do dia entre os gregos e romanos de seu tempo (normalmente no final da tarde ou no começo da noite).1 Ou seja, ao ensinar sobre a Ceia, Paulo tinha em mente um banquete que não somente era literal, mas era também SUBSTANCIAL.
A propósito, as admoestações de Paulo contra a comilança e embriaguez dos coríntios não fariam o menor sentido se os primeiros cristãos celebrassem a “ceia tradicional” com elementos simbólicos atualmente realizada em nossas Igrejas.

O problema de Corinto

O episódio em Corinto merece nossa atenção devido a má interpretação da proposta de Paulo para a solução dos problemas que estavam ocorrendo na celebração da Ceia naquela igreja.
Não poucos irmãos entre nós (até mesmo na Igreja nos lares) entendem as admoestações de Paulo aos corintios (para que os irmãos mais abastados “comessem em casa”) como um mandamento para que a Ceia fosse realizada como um evento distinto e separado do farto banquete que mais tarde seria conhecido entre os discípulos como “Festa Ágape” (Jd. 12). Mas esta é uma má interpretação das instruções do apóstolo.
Ao lermos 1 Cor 11:17-34 com atenção, entenderemos que os mais abastados estavam trazendo a comida e comendo a sua refeição individualmente, sem se preocuparem com os irmãos mais pobres da Igreja, envergonhando assim “os que nada têm” que normalmente chegavam de mãos vazias ao evento e acabavam ficavando sem comer (v. 22). As pessoas somente “enchiam a pança” sem se preocupar com os demais membros do Corpo, esquecendo-se de consagrar o pão e o vinho em conjunto com TODOS os membros do Corpo Local. A Ceia deixava então de ser a celebração do Corpo de Cristo para tornar-se uma mera comilança egoísta.
Paulo não mandou ninguém comer em casa porque pensava que a Ceia era algo “demasiadamente sagrado” para ser celebrada durante uma refeição normal. A repreensão de Paulo não se deu por eles estarem “profanando” a Ceia pela “falta de reverência” ao literalmente festejá-la com fartura de alimentos. Paulo repreendeu os corintios por estarem comendo fora do espírito da comunhão, pelas dissensões que havia na Igreja (v. 18) e porque cada um estava fazendo “a sua própria ceia” de maneira egoísta (v.21). A solução proposta por Paulo não foi uma “ceia simbólica”, e sim que “se você não consegue se controlar, coma em casa, aplaque essa sua ‘fome de leão’ e abençoe o mais pobre” para que todos possam participar JUNTOS da Ceia. O apóstolo é bem claro quanto a isso quando termina o capítulo dizendo que “quando vos ajuntais PARA COMER, esperai uns pelos outros” (v. 33).
É obvio, portanto, que Paulo não aboliu a prática de compartilhar uma refeição literal durante a Ceia do Senhor em Corinto, apenas corrigiu alguns excessos que estavam ocorrendo naquela Igreja.

Conclusão

A maioria de nós vem de uma tradição católica onde o batismo por aspersão é praticado. Algumas denominações protestantes nunca aboliram esta prática herdada do catolicismo, apesar do amplo entendimento de que o batismo por imersão reflete com mais fidelidade o batismo bíblico, tanto na questão morfológica da palavra (a palavra “batismo” vem do grego βάπτω –bapto - quer dizer literalmente “imergir”)2 quanto na prática da Igreja primitiva (que batizava por imersão). Assim como a ordenança do batismo, a Ceia do Senhor também sofreu uma mutação em seu formato original.
A Ceia foi originalmente instituída pelo Senhor Jesus em um contexto de refeição literal (Lucas 22: 15-20). O Senhor consagrou o pão e, somente depois de cear (v.20), consagrou o vinho e o tomou com seus discípulos. Ele abriu a Ceia com o pão, comeu o banquete da Páscoa3 e fechou o jantar ao levantar o cálice de vinho. Anos de tradição religiosa “enxugaram” a ordenança ao minimizar ao máximo a literalidade dos elementos que a compõem: o pão foi substituído por alguns farelos e a taça de vinho por suco de uva servido em copinhos de flúor.
Obviamente esta é uma questão secundária com relação à salvação e que, pela graça de Deus, não é o formato da ordenança e sim a fé de cada um que cumpre o seu propósito principal. Entretanto, tal princípio não invalida o valor desta discussão: é fato que a ceia simbólica que atualmente celebramos em nossas igrejas foi uma adaptação pós-bíblica da tradição apostólica. Uma análise bíblica e histórica imparcial na questão da Ceia nos levará a reconhecer que a ceia literal está para o batismo por imersão assim como a ceia tradicional está para o batismo por aspersão no tocante ao seu formato.
A Ceia do Senhor não se distingue de outras refeições no seu formato, somente em seu significado. O que distingue a Ceia como um ato profético não é um ritual solene em que experimentamos alguns “aperitivos sagrados”, mas o propósito pelo qual nos reunimos: não somente para “encher a pança” (como nos adverte Paulo), mas para, em alegria, relembrar a oferta vicária feita em nosso favor à medida que confraternizamos uns com os outros.
A cirúrgica separação entre a Ceia do Senhor e o banquete promovida pela tradição eclesiástica transforma a ordenança em um ritual totalmente estranho às Escrituras e à prática dos primeiros apóstolos, desprovido totalmente de seu contexto de celebração e fraternidade. Diante de tantas descrições bíblicas da Ceia como um banquete, enxergar Pedro, João, Paulo, Silas, Timóteo e os demais discípulos comungando em torno de uma mesa cheia de “aperitivos simbólicos” é mais do que uma idéia equivocada. É algo totalmente surreal.
Continua na parte 2.
Notas
[1] Strong # G1173
[2] Strong # G911
[3] Em 1 Cor. 11:25, Paulo diz que Jesus, depois de cear, tomou o cálice. “Cear” do grego δειπνέω (deipneo), quer dizer “jantar”, ou seja, antes de tomar o cálice Jesus comeu SUBSTANCIALMENTE (Strong # G1172).

© Pão & Vinho
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Igreja nas Casas - Revolução ou Reforma?


As revoluções têm como característica mudar algumas partes do todo, mas, no geral, tendem a alterar a forma sem alterar o conteúdo. A reforma trabalha na essência, mudando os fundamentos.
Por exemplo, Lutero apresentou suas teses, entre as quais a do sacerdócio universal dos santos e da salvação pela fé. Isso tocou nas bases doutrinárias do catolicismo. Por isso foi uma reforma.
A ida da igreja para as casas não é uma revolução, pois não se trata de uma mera mudança na maneira ou no local de reunião. Esse mover de Deus trata de uma reforma profunda na visão, na prática e na experiência do povo de Deus. Antes de efetuar mudanças externas, portanto, temos de trabalhar com base em princípios e fundamentos.
O fundamento primordial tem a ver com uma visão de Jesus, numa profunda revelação de sua Pessoa, de forma que haja transformação no indivíduo. A consequência disso é uma mudança no entendimento do que é a igreja de Jesus. Se formos para as casas sem uma visão correta de igreja, cada casa será uma pequena denominaçãozinha, independente e autônoma. Cada um de nós pode ir para casa e ali formar um grupo à sua imagem e semelhança. E então ele se torna a melhor e mais bíblica motivação para as divisões.

O MODELO
Há um bom tempo, temos pensado e afirmado que o Novo Testamento não fornece um modelo de estrutura para a igreja – nem nos evangelhos, nem nas cartas. Percebo que, até agora, temos procurado no lugar errado. Deus sempre trabalhou para a família e ao redor da família. Seu projeto foi abençoar as famílias da Terra. Seu desejo é ter uma família de muitos filhos semelhantes a ele. Ele é Pai.
Diante disso, a única estrutura que cabe nos projetos da igreja é a estrutura de uma família. A igreja deve viver como família, com pais, irmãos e filhos, e a única forma de alcançarmos isso é transformando nossa casa em igreja, não como forma de reunião, mas em manifestação do Espírito Santo na relação entre seus integrantes.
Para que a casa seja uma igreja, seus participantes precisam viver como igreja: os pais devem pastorear seu pequeno rebanho, a esposa e os filhos. Só assim ele terá condições de cuidar de mais gente à medida que o Senhor for acrescentando. Por causa disso, precisamos trabalhar no ensino sobre as funções dos participantes de uma família, o que passa necessariamente por dar um exemplo de vida.
A DRACMA PERDIDA
“Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido” (Lc 15.8,9).
A dracma era uma moeda de valor bem baixo. O que fez com que aquela mulher acendesse uma candeia (gastando combustível), varresse a casa e buscasse com tanta diligência a moeda que perdera, convocando amigas e vizinhas para festejar depois de encontrá-la? Em sua convocação, ela não diz que achou uma dracma perdida, mas a dracma perdida. Isso demonstra que as vizinhas e amigas já sabiam da perda, e que a dracma era especial. Especial por quê?
Uma interpretação assinala que era uma mulher pobre, o que se pode inferir pelo fato de ter de acender uma candeia, providência necessária numa casa sem janelas, escura, tipicamente pobre. Outra coisa é que ela mesma buscou a dracma, e não os empregados. E, por ser pobre, precisava muito encontrá-la.
A outra interpretação destaca que essa dracma fazia parte de um conjunto de moedas ligadas entre si, como um colar ou um diadema, que era usado por mulheres casadas (comprometidas); no caso de perder uma das dracmas, a mulher não poderia usar o símbolo de seu compromisso. Penso que esta interpretação é mais coerente com as outras parábolas de Lucas 15: uma ovelha no conjunto do rebanho, o filho e o irmão no conjunto da família. Em cada parábola, uma perda que deixou colar, rebanho e família incompletos.
O colar, ou diadema, representa o compromisso que a igreja tem com o Noivo. As dracmas representam os dons recebidos do Senhor, as atitudes e os frutos provenientes da conversão e da operação do Espírito Santo, os ministérios, enfim, coisas pequenas ou grandes que revelam uma vida comprometida com o Senhor, tais como dignidade, respeito, pureza, domínio próprio, humildade, disposição para servir, sobriedade, disciplina, submissão, coragem, integridade, fé, gentileza, dedicação, sobriedade, consagração, piedade, disposição ao trabalho, diligência, honestidade, delicadeza. Essas virtudes são recebidas no relacionamento com Deus e com as pessoas e podem ser perdidas.
Dentro de casa, perdemos a maior parte da nossa vida espiritual. É no convívio com os de nossa casa que se manifesta o que realmente somos. Ouso dizer que os chamados “confins da terra”, aquele lugar mais difícil de ser alcançado, são justamente o ambiente da casa, pois ali a autoridade é questionada, e a santidade, posta à prova.

ACABANDO COM A ESQUIZOFRENIA
Hoje, a igreja é o reflexo daquilo que são as famílias. Se a igreja está fraca, é porque as famílias ficaram fracas. Uma viagem de carro de casa para o local de reunião não tem o poder de transformação como pode parecer, quando pessoas egoístas e carnais subitamente passam a exibir um comportamento quebrantado e espiritual. Não podemos ser uma coisa em casa e outra no ambiente de culto.
Como numa esquizofrenia diabólica, vivemos dupla personalidade. E isso veio porque conseguimos dividir o indivisível. Separamos a vida da família da vida da igreja. Passamos a adotar práticas de vida diferenciadas. Quando estamos no ambiente da família, não temos a mesma atitude que demonstramos junto aos irmãos.
Esquecemos que, quando dois ou três estão reunidos no nome do Senhor, ele está presente. Esquecemos que, antes de sermos marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs, somos filhos de Deus e devemos viver como tais, para que nossas orações não sejam interrompidas. Muita oração é interrompida por causa da duplicidade de vida.
Igreja nas casas é a consciência de que somos pessoas espirituais, e se, antes nos conhecíamos segundo a carne, agora nos vemos segundo Deus.
Igreja nas casas é a transformação da vida de família em um ambiente de manifestação da vida de Deus e a consequente atração que a vida de Cristo opera naqueles que o encontram.

PAIS E FILHOS NA FAMÍLIA DA FÉ
Por último e como paradigma indispensável, temos de obedecer à última ordem de Jesus; de fazer discípulos. Uma igreja não pode subsistir como igreja sem cumprir esse mandamento do Senhor. Não podemos pensar no fazer discípulos como um ministério destinado a alguns ou aceitar a esterilidade como algo normal. É mandamento do Senhor que cada filho dele faça discípulos. Isso implica a prática do discipulado pelos pais da igreja na casa e, também, que eles próprios sejam discipulados. Cada chefe de família deve estar em íntima unidade com quem cuida de sua vida e ser discípulo fiel, para que, por sua vez, possa fazer discípulos dentro de casa. Não se pode cobrar algo de outros quando não se pratica o mesmo que está sendo exigido.
Não defendo uma estrutura hierárquica, mas a paternidade que deve ser reconhecida na igreja. Cada um de nós foi gerado por alguém ou adotado por alguém que é reconhecido como pai. O discipulado é a adoção de pessoas como filhos e não um sistema em que o discípulo é servo do discipulador, assim como a igreja não é serva de seus pastores e presbíteros. Ao contrário, aquele que cuida é servo do que é cuidado.

O QUE A IGREJA NA CASA NÃO É:
- uma troca do lugar de reunião;
- uma reunião;
- uma simples melhora na estrutura;
- uma mudança de formas;
- o simples comer junto, pois o reino de Deus não é comida ou bebida.

O QUE A IGREJA NA CASA É:
- uma mudança na raiz da igreja;
- uma mudança de mentalidade de seus membros;
- uma restauração da vida de Jesus na família;
- acender uma candeia na casa com o fim de atrair os vizinhos.

Jamê Nobre
[mora em Jundiaí, SP, é casado com Irani e tem três filhas casadas, um filho e quatro netos. Ele dá assistência espiritual a diversas congregações no Brasil e no exterior.]

Fonte: Revista Impacto N°60

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