Reuniões

As reuniões da Igreja Neo-Testamentária


“Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração,” (Atos 2.46. NVI)

Geralmente esse texto é usado para defender a idéia que a igreja primitiva fazia cultos em templos, além de reunir-se nos lares. Porém, essa passagem se refere aos cristãos de Jerusalém, a primeira igreja cristã que existiu. E Jerusalém, onde tinha um templo, era a exceção e não a regra. O Templo ali referido é o Templo de Jerusalém, o único em todo o país. A versão NVI traduz adequadamente, dizendo-nos que os irmãos se reuniam no pátio do templo, pois, dentro do templo de Jerusalém, só entravam sacerdotes e levitas judeus. Os pátios do templo eram locais públicos, abertos para os judeus. Então, o que a igreja fazia ali? A igreja do Novo Testamento, em Jerusalém, composta quase que exclusivamente de judeus convertidos, ia ao templo para: (1) evangelizar e testemunhar para os judeus; (2) reunir as igrejas (das casas) da cidade para ouvir o ensino de um apóstolo. Os cristãos primitivos em Jerusalém não iam ao templo para adorar, como fazem hoje católicos e protestantes institucionais. Isto é uma diferença relevante.

A igreja em Jerusalém (e em qualquer outra cidade mencionada no Novo Testamento) não possuía local próprio de reunião. Reunia-se em locais públicos e em seus lares. Em Jerusalém, ela se aproveitava dos grandes pátios e pórticos do Templo, para fazer grandes reuniões (lembre-se de que, somente no primeiro dia da igreja em Jerusalém, houve uma conversão de três mil pessoas). Aliás, raramente se vê no Novo Testamento as igrejas de outras cidades fazendo grandes reuniões. Atos 19.9-10 menciona Paulo ensinando na escola de Tirano durante dois anos, um local cedido à igreja de Éfeso para fins de ensino. E só. O local de reunião eram os aconchegantes lares de alguns irmãos.

Muitos argumentam que a igreja no primeiro século não se reunia em templos porque era muito pobre, por isso não os podia construir, e porque era perseguida.

Mas esta explicação é incoerente com os fatos. Os cristãos de Jerusalém vendiam suas propriedades para distribuir com os irmãos necessitados (Atos 4.34-35). Propriedades? Eles tinham propriedades? Que propriedades eram essas? O verso 34 diz que eram terras e casas... eram imóveis! Alguns irmãos ali possuíam imóveis, além das casas nas quais moravam. Não era por falta de terra nem por falta de recursos que eles não construíram templos nem auditórios no primeiro século, pois eles davam o dinheiro das vendas de seus imóveis aos apóstolos! Por que os apóstolos não pegaram o dinheiro dos irmãos e construíram um grande templo para esta igreja? Primeiro porque a prioridade era outra. Era não permitir que nenhum irmão passasse necessidade.

Hoje fico a pensar nos caros imóveis de propriedade das igrejas institucionais, católicas e evangélicas. No quanto custaram aos irmãos e o quanto custam para serem mantidos. Se fossem vendidos, daria para impedir que muitos irmãos pobres de hoje passassem fome, sede e frio.

Quanto à perseguição, no primeiro século, somente a igreja em Jerusalém foi perseguida pelos judeus, a ponto de os cristãos terem que sair da cidade. Quando se estabeleceram em outros locais, o “DNA” da igreja continuou o mesmo, ou seja, nada de gastar dinheiro com construções, enquanto irmãos de nossa família passam necessidade. Não se houve falar em templos construídos pelos cristãos em nenhuma cidade mencionada no Novo Testamento.

Outro motivo que explica porque a igreja não construía templos, é que, depois de Jesus, o Templo de Jerusalém deixou de ser o “lugar de adoração” (João 4.23-24). Agora, a adoração é “em espírito e em verdade”. Não existe mais lugar especial para adorar a Deus. O próprio Senhor mudou isto. O “Santo Templo” agora é o corpo de cada cristão (1 Cor. 6.19) e o Santo dos Santos, ou o Santíssimo (como os católicos chamam) é hoje o coração de cada irmão. É nele que habita o Espírito Santo. Construir templos é uma incoerência com a doutrina cristã. Construir templos hoje em dia é colocar o vinho novo do Evangelho de Jesus Cristo no odre velho do Judaísmo vetero-testamentário. Isso estraga os dois. Penso pessoalmente que é uma desobediência ao Senhor. É como se os cristãos de hoje dissessem “Senhor, tu dissestes claramente que agora moras em nossos corações, não nos templos, mas nós vamos continuar construindo templos de pedras porque gostamos deles. Preferimos ter templos do que ser templos. Não importa as necessidades dos irmãos. Antes, importa termos templos; e quanto mais suntuosos, melhor”

Enfim, lembremos que a palavra eklesia significa “assembléia” ou “congregação”. A igreja cristã é, portanto, um templo de pedras vivas quando os irmãos estão reunidos, pois Deus habita neles.
Os locais de reunião da igreja, na Bíblia, eram primordialmente as casas dos irmãos.


Eventualmente, os cristãos se reuniam em locais maiores, para congregar as pequenas igrejas dos lares da cidade. O modelo encontrado no Novo Testamento, o modelo bíblico, no tocante aos locais de reuniões, é o modelo orgânico das igrejas nos lares

A Liturgia das Reuniões da Igreja Primitiva


O que a igreja fazia em suas reuniões nos lares? Como era a programação, ou a liturgia?
Impressionantemente, não há no Novo Testamento nenhuma liturgia descrita ou indicada, nem mesmo um padrão ritualístico que possa ser imitado. Sabemos pelo livro de Atos que eles comiam juntos em suas casas e que “partiam o pão”. Além disso, sabemos que oravam e estudavam a “doutrina dos apóstolos”. Mas, não sabemos se comiam no começo das reuniões, no meio ou no fim delas, nem se o momento do estudo bíblico era antes ou depois das refeições ou das orações.

A melhor pista que temos a respeito do que acontecia nas reuniões das igrejas do primeiro século é encontrada em 1 Coríntios 14.26-33, que diz:

“Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja. Se, porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve interpretar. Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.
Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito. Se vier uma revelação a alguém que está sentado, cale-se o primeiro. Pois vocês todos podem profetizar, cada um por sua vez, de forma que todos sejam instruídos e encorajados. O espírito dos profetas está sujeito aos profetas. Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz.”

Nesta passagem, dá para sabermos o que acontecia nas reuniões das igrejas bíblicas. Cada pessoa podia compartilhar, durante a reunião da igreja, um salmo (uma música), uma palavra de instrução, ou uma revelação (ou profecia). Como ainda não havia presbíteros naquela igreja à época que Paulo escreveu esta carta, ele recomendou que todos os que não eram profetas deviam julgar as profecias dadas pelos que tinham este dom, para que não ocorressem profecias falsas. Um irmão poderia dar uma palavra em uma língua estranha, desde que fosse acompanhada pela adequada interpretação. Cada um podia usar seus próprios dons nas reuniões da igreja! E todos os irmãos deveriam participar, sendo um de cada vez, com ordem, conforme a orientação do Apóstolo, “pois Deus não é Deus de confusão”.

Um quadro bem diferente do que se vê nas congeladas liturgias das igrejas chamadas de históricas, ou nas liturgias tipo “feira-livre” das igrejas ditas pentecostais.

O que acontecia primeiro? Bem, se esta passagem expressa uma liturgia da igreja primitiva, uma seqüência de ações que aconteciam de forma padronizada nas reuniões das igrejas, a liturgia era:

1. Músicas ou poesias. Cânticos eram entoados por alguns irmãos ou poemas eram declamados, enquanto os outros ouviam.
2. Pregações ou estudos bíblicos diversos. Ministrados por quaisquer irmãos que tivessem algo a compartilhar, e não só pelos presbíteros-pastores ou diáconos.
3. Profecias. Duas ou três pessoas a cada reunião, dotadas com o dom espiritual da profecia, podiam profetizar, uma após a outra. E os outros precisavam julgar o conteúdo das profecias dadas (talvez como os Bereanos faziam, auditando-as segundo as Escrituras!).
4. Línguas. Os que tinham o dom espiritual de falar outras línguas, faziam uso dele, se, e somente se, tivesse quem as interpretasse.

Antes ou depois dessas coisas, talvez fossem realizadas as refeições e as orações. Em algum momento da reunião, também ocorria o recolhimento de ofertas para os necessitados e para o sustento dos apóstolos-missionários.

Que liturgia fantástica! Uma pessoa incrédula que visitasse uma igreja que se reunisse assim, ficaria impressionada (ou escandalizada)! Ou se converteria ou odiaria de vez os cristãos.

Por outro lado, caso a passagem não expresse uma liturgia fixa, temos aí listadas apenas as suas práticas, que podiam ocorrer em ordens variadas nas reuniões. Se era assim, nenhuma reunião era igual à outra, em termos de liturgia. E mais, talvez não aconteciam todas essas práticas em todas as reuniões.

Assim, apesar de organizada, ou a igreja primitiva não tinha uma liturgia pré-fixada para suas reuniões, ou ela tinha uma liturgia bastante flexível e, principalmente, completamente participativa.

Não há uma só indicação, no Novo Testamento, da liturgia engessada como vemos nas igrejas institucionais de hoje. Essas liturgias são mais ou menos assim:

· Oração inicial – feita por uma “autoridade eclesiástica” do “clero”.
· Música – dirigida pelos “ministros de música”;
· Recolhimento de ofertas e dízimos – feito geralmente pelos diáconos;
· Oração de consagração pelas ofertas e dízimos – feita por autoridades da igreja;
· Pregação do sacerdote ou pastor;
· Apelo;
· Ceia do Senhor (em alguns dias), cujos elementos (pão e vinho) são primeiro consagrados por presbíteros e depois distribuídos também por eles. Nas igrejas católicas, a distorção neste ponto é ainda maior.
· Cântico final – dirigido pelo pastor.
· Oração final (geralmente de bênção “apostólica”).

Como se chegou a este tipo de liturgia? Isto não dá para abordar neste artigo. Aliás, não preciso escrever sobre isto. Leia o livro Cristianismo Pagão de Frank Viola e você descobrirá[1]. Mas é visível a diferença litúrgica entre as participativas e vibrantes reuniões da igreja primitiva nas casas e das seletivas e congeladas reuniões das igrejas de hoje, nos templos. Se um cristão primitivo viajasse no tempo e chegasse numa igreja de hoje, teria um ataque nervoso. Talvez, tomasse a palavra do pastor ou do padre e, aos gritos, chamasse a atenção de todos para voltar às origens, em nome de Jesus.

Somente uma pequena parte das pessoas na moderna igreja institucional atua nas suas reuniões – o “clero”, enquanto a maior parte das pessoas apenas assiste passivamente, ou recebe o “serviço”, (como os americanos do norte chamam o culto). Um modelo que minora este aspecto seletivo elitista clerical nas igrejas institucionais é o que chamam de rede ministerial. Porém, este modelo nem chega perto das reuniões da igreja primitiva. Aliás, é um modelo inspirado no Velho Testamento. Mais uma vez o odre velho!

Enfim, o modelo encontrado no Novo Testamento, o modelo bíblico de igreja, no tocante à liturgia não é o institucional; é o modelo das igrejas nos lares.

Marcio Rocha

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[1] Este livro pode ser baixado gratuitamente no site da editora restauração – www.editorarestauração.com.br
Postado por Marcio Rocha às 09:13
Marcadores: Liturgia
Um comentário:

Th21 de abril de 2013 14:15
Por exemplo podemos ver o Didaque (ano 60 a 90 dC):

[b]Parte II – A Celebração Litúrgica[/b]

[b]CAPÍTULO VII[/b]

1Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo [Cf Mt 28,19].
2Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente.
3Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
4Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

[b]CAPÍTULO VIII[/b]

1Os seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.
2Não reze como os hipócritas, mas como o Senhor ordenou em seu Evangelho. Reze assim: “Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão-nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai nossa dívida, assim como também perdoamos os nossos devedores e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do mal [Cf Mt 6,9-13; Lc 11,2-4], porque teu é o poder e a glória para sempre”.
3Rezem assim três vezes ao dia.

[b]CAPÍTULO IX[/b]

1Celebre a Eucaristia assim:
2Diga primeiro sobre o cálice: “Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre”.
3Depois diga sobre o pão partido: “Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.
4Da mesma forma como este pão partido havia sido semeado sobre as colinas e depois foi recolhido para se tornar um, assim também seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu Reino, porque teu é o poder e a glória, por Jesus Cristo, para sempre”.
5Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: “Não dêem as coisas santas aos cães”.

[b]CAPÍTULO X[/b]

1Após ser saciado, agradeça assim:
2″Nós te agradecemos, Pai santo, por teu santo nome que fizeste habitar em nossos corações e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.
3Tu, Senhor onipotente, criaste todas as coisas por causa do teu nome e deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, para que te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma bebida espirituais e uma vida eterna através do teu servo.
4Antes de tudo, te agradecemos porque és poderoso. A ti, glória para sempre.
5Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, livrando-a de todo o mal e aperfeiçoando-a no teu amor. Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu Reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre.
6Que a tua graça venha e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Venha quem é fiel, converta-se quem é infiel. Maranatha. Amém.” [Cf 1Cor 16,22; Apoc 22,20]
7Deixe os profetas agradecerem à vontade.

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