O Batismo

Quem batizar? Quando batizar?

Uma pergunta muito comum entre as igrejas simples é como e quando batizar pessoas de diferentes transfundos que chegam no nosso grupo caseiro. Quando batizar um dependente químico? Podemos batizar pessoas que vivem juntas sem serem legalmente casadas? E o que dizer dos homossexuais? Podemos batizar estas pessoas imediatamente, após a aceitação do Evangelho, ou devemos submetê-las a um “curso de batismo”, ou “curso de discipulado” antes de submergi-las nas águas batismais?
Particularmente, creio que existem dois tipos de pessoas que acompanham a obra do Reino: os discípulos e a multidão. No ministério terreno de Jesus, podemos ver estes dois tipos de pessoas. A diferença entre estes dois tipos de pessoas era que os discípulos eram aqueles que caminhavam lado a lado com Jesus, que haviam feito sacrifícios pessoais para a obra do Reino, e que estavam à disposição para servir, enquanto a multidão se maravilhava com as palavras e as obras de Jesus, mas o acompanhavam de longe, sem se comprometer com o Reino.
Pedro recebeu o mesmo chamado que o jovem rico. O Mestre lançou o mesmo desafio aos dois, mas somente um deles demonstrou compromisso com o Reino. Interessante notar que o Senhor não estava à procura de homens perfeitos (eles demonstraram vaidade, incredulidade e covardia ao longo de sua caminhada com o Mestre), mas Ele estava à procura de pessoas que aceitassem o desafio de caminhar com Ele pela fé.
A resposta bíblica para quando podemos ou devemos batizar alguém é pregar a mensagem do Reino (Ele morreu, Ele ressuscitou, Ele vive, Ele reina) àqueles que caminham conosco e, então, observar a que grupo estas pessoas querem pertencer (discípulos ou multidão). Os que aceitam o desafio de submeter-se ao Senhorio de Jesus devem ser batizados sem demora e aqueles que se esquivam do chamado devem permanecer na multidão.

A sequência bíblica

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:19-20).
É consenso entre nós que a ordem que o Senhor nos dá no versículo acima é fazer discípulos. Mas como? Devemos batizá-los e depois ensiná-los a guardar os mandamentos ou ensiná-los a guardar os mandamentos para depois batizá-los?
Ora, é muito óbvio, tanto na comissão acima expressa como em diversos outros exemplos na Bíblia onde o batismo foi oferecido aos novos convertidos sem demora1 que a ordem a ser seguida no discipulado é primeiro batizar e depois ensinar a guardar os mandamentos, e não o contrário. Alguns entre nós entendem que o candidato ao batismo deve passar por um curso preparatório, mas se a simples  em Cristo não requer conhecimento doutrinário, tampouco o batismo. O “curso de batismo” é, na verdade, uma invenção da Igreja moderna, um elemento totalmente estranho à prática neotestamentária. Outros alegam que batizar “prematuramente” pode comprometer o testemunho da Igreja (se o batizado se “desviar”) e por isso não apoiam o batismo imediato ao desejo do novo convertido de ser batizado. Mas claramente os obreiros neotestamentários não tiveram esta preocupação. Nas Escrituras, o único pré-requisito para o batismo era a fé, expressada pela simples expressão verbal de crença no Cristo.
E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e Filipe o batizou. (Atos 8:3-38)

Fé somente. Sem pré-requisitos.

Como escrevi no artigo intitulado “No caminho de Emaús“, podemos pregar a mensagem do Reino de uma maneira mais ousada, concisa e direta – em que o incrédulo é imediatamente desafiado ao arrependimento e uma vida de entrega para o Reino – ou podemos evangelizar por meio do relacionamento, em um processo em que nos sentamos à mesa de jantar das pessoas e gradualmente descortinamos o Cordeiro de Deus na narrativa bíblica – desde o Éden até a cruz. 2
Assim, não há um tempo determinado em que uma pessoa possa ser batizada. Como dito anteriormente, isso se dá de acordo a fé da pessoa. Em outras palavras, o evangelismo de uma pessoa pode até demorar dias, semanas, meses e até anos, dependendo da abordagem evangelística e da resposta do indivíduo. Mas, biblicamente falando, o discípulo deve ser batizado imediatamente à aceitação da Mensagem, isto é, quando ele expressa verbalmentesua fé no Filho de Deus e seu desejo de renunciar as obras mortas, para viver em novidade de vida.
É bom lembrar que dos doze que o Senhor admitiu publicamente como seus discípulos, absolutamente todos o traíram (não somente Judas), sendo que um deles o vendeu por 30 moedas de prata e os demais o abandonaram no momento mais dífícil de sua vida (e, com excessão daquele que se matou, o Senhor aceitou a todos de volta). Assim, não temos autoridade bíblica para exigir do gay garantias de que ele deixará seu estilo de vida homossexual antes de batizá-lo, ou impor ao dependente químico um tempo de abstenção de narcóticos para provar que está “apto para o batismo.”
A justiça nos é imputada por fé, 3. A fé prescede a santificação, e não o contrário (caso contrário, estaremos pregando um pseudo-evangelho legalista). A fé verdadeira trará seus frutos a seu tempo, mas estes frutos não devem ser um pré-requisito para que a Igreja estenda a destra da comunhão a alguém que aceita o desafio de entregar sua vida a Cristo. E se o Senhor nos aceita por fé (e não por obras), igualmente devemos estender a destra da comunhão mediante a fé (e não mediante as obras) do discípulo, conscientes do fato de que certamente o futuro trará seus desafios e tentações ao novo convertido. Diante disso, o papel da Igreja não é postergar o batismo até que o pecador “se torne dígno da desta da comunhão,” e sim oferecer a destra da comunhão para fortalecer e levantar o discípulo que eventualmente venha a fraquejar diante da tentação nos primórdios de sua conversão.

Conclusão

O batismo não é um medalhão de “honra ao mérito” a ser conquistado por boas obras. É a inicialização da fé, cujo único pré-requisito é a fé. O Senhor nos dá autoridade para batizar, mas não para negar o batismo a alguém que expresse seu desejo de abrir mão das obras mortas e começar uma vida nova com o Senhor. Há casos em que, no caminho de Emaús, não ofereço o batismo por ainda não observar um nível de compromisso com o Reino por parte dos ouvintes. Mas tão logo eles expressem o desejo de alinhar sua vida com o Reino e submeter-se a Cristo, o batismo deve ser administrado sem demora e sem pré-requisitos. O batismo é o pacto visível, firmado nas águas diante de Deus, de satanás e dos homens, em que o novo convertido afirma confiar na graça de Deus em Cristo para salvá-lo e para capacitá-lo a viver em novidade de vida daquele momento em diante. Assim, não temos que exigir que o convertido “conserte sua vida” antes de ser batizado, e sim iniciá-lo “oficialmente” na fé cristã por meio do batismo e ajudá-lo a caminhar em novidade de vida do batismo em diante.
Somos despenseiros da graça divina, oferecida gratuitamente a todo pecador. Na Biblia o batismo é o primeiro passo rumo à sujeição do discípulo ao senhorio de Cristo, não é um direito a ser conquistado mediante critérios religiosos de santidade ou conhecimento doutrinário.
O obreiro que nega o batismo a alguém que expressa o desejo de passar pelas águas é tão incoerente quanto o médico que impede que o paciente entre no hospital até que “ele esteja em melhores condições de saúde.” O batismo é a iniciação da fé e não deve ser confundido com o discipulado, que é a manutenção da fé, quando ensinamos o discípulo a viver o Evangelho, e alinhar sua vida aos princípios do Reino.
“Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão… E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão…” (Romanos 4:9,11).
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NOTAS:
  1. O eunuco batizado por Felipe (Atos 8:36-38), Paulo (Atos 9:18), Cornélio (Atos 10:43-48), o carcereiro em Filipo (Atos 16:33) são alguns exemplos (clique aqui para ler estas passagens↩
  2. É bom ressaltar que, como explicado anteriormente, “o caminho de Emaús” é uma abordagem de enfoque evangelístico, não doutrinário. ↩
  3. Ler Romanos 4:3-6. Não quero com este argumento advogar a favor da “graça barata,” que cirurgicamente separa a graça para a salvação da graça para a santificação. Creio que estes dois aspectos da graça são inseparáveis ↩


Quem tem autoridade para batizar?

Houve um tempo em que cooperava com uns irmãos de uma igreja tradicional que estavam interessados em buscar uma expressão mais orgânica de igreja. Neste tempo, fui enviado pelos líderes locais a uma comunidade de indígenas guatemaltecos para ajudar no batismo de um grupo de novos convertidos. Esta comunidade nasceu quando um homem simples, também de origem indígena, começou a ser usado no dom de cura mediante a oração em nome do Senhor. Quando cheguei no lago onde seriam realizados os batismos, surpreendi-me ao saber que não estava lá para ajudar este irmão nos batismos, mas que estava lá para realizar os batismos (!!!). A razão era que este homem, que havia ganhado quase todas aquelas pessoas para Cristo, não se julgava apto para batizar porque não era um “ministro ordenado” (ironicamente, este homem não sabia que muito embora eu era reconhecido como um obreiro na região, tampouco havia sido “ordenado” nos moldes denominacionais).
Tentei convencer aquele homem a entrar nas águas comigo e batizar seus filhos na fé, mas ele se recusou. Após muito insistir e argumentar, percebi que deveria respeitar sua decisão para não causar um desconforto nele e, principalmente, em alguns de seus superiores mais conservadores na hierarquia eclesiástica. Experimentei o contraste de alegremente batizar aqueles pequeninos, porém com a tristeza de ver aquele irmão esperando seus filhos na fé com uma toalha à beira do lago.

Levantado por Deus e desautorizado pelos homens …

Há 500 anos atrás, os anabatistas davam sua vida pelo privilégio de batizarem uns aos outros. Hoje, em tempos de liberdade religiosa no Ocidente, nosso maior problema parece ser saber quem tem ou não autoridade para batizar nas águas. Mais forte do que a espada do tirano são os paradigmas da tradição religiosa.
Curiosamente, o Senhor nos mandou fazer discípulos em todas as nações e batizá-los (Mateus 28:16-20), mas “se esqueceu” de criar um estatuto especificando quem poderia exercer a função de batizar os discípulos. E os homens, aproveitando-se deste vácuo, criaram então os seus próprios estatutos para regulamentar a questão. E parece haver um consenso entre as diversas cidadelas eclesiásticas de que somente o clero tem autoridade para batizar.
Batizar um discípulo, de fato, não é para qualquer um. Porém, nas Escrituras, o privilégio de batizar um discípulo nas águas não tem nada a ver com títulos ou patentes eclesiásticas.

O batismo na Igreja neotestamentária

Seria surreal pensar que somente doze apóstolos se encarregariam de batizar as quase 3000 almas que em um só dia se converteram em Jerusalém nos eventos registrados em Atos 2. Razoável pensar que os apóstolos contaram com a ajuda daqueles poucos mais de 100 discípulos que os acompanhavam naquele instante.
Isso parece fazer sentido quando observamos que Paulo, após ter seu dramático encontro com o Senhor à caminho de Damasco, foi batizado por um simples discípulo chamado Ananias (Atos 9:10-18). Não há menção de que Ananias fosse um presbítero em Damasco. Da mesma maneira vemos Felipe, que não era presbítero, “somente” um diácono (Atos 6:5) — função que em algumas denominações não é reconhecida como “ministerial” ou “clerical” — descer à Samaria para prega Reino e batizar. Mais tarde, ele batizou também o eunuco no caminho de Jerusalém à Gaza (Atos 8:12-13, 38).
Portanto, batizar nas águas não depende de “ofício”, mas sim da concessão de paternidade espiritual a quem o Senhor entrega uma alma para pregar, cuidar e ensinar.

Conclusão

Se, em um contexto de Igreja simples, não estamos coagindo as pessoas a se batizarem e se esse é um desejo que parte delas para firmar seu compromisso com o Reino, biblicamente falando, não temos o direito de negar-lhes o batismo. O Novo Testamento nos mostra que “ser discípulo” é o único requisito indispensável para fazer outro discípulo e, portanto, batizá-lo nas águas. Não há nenhum mandamento ou evento bíblico que nos levem a outra conclusão.
Com isso não quero dar a impressão de que basta fazer o candidato a discípulo rezar a “oração do pecador” (uma invenção da Igreja moderna) e depois jogá-lo na piscina. O batismo deve ser resultante da firme e autêntica convicção de pecados do batizando e, no contexto do “Ide” de Mateus 28:16-20 (onde o Mestre nos ordena a batizar), aquele que batiza deve ter uma firme convicção de seu chamado a não somente batizar os novos discípulos, mas a cuidá-los, corrigí-los e orientá-los, ensinando-os a guardar “todas as coisas que vos tenho ordenado.”
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Fonte: http://paoevinho.org/

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